Vida em sistemas

A vida é sistêmica e isso significa que tudo está ligado de forma interdependente. Para qualquer situação que lançarmos nosso olhar, perceberemos que não é possível realizar uma análise eficiente considerando apenas uma parte, pois o movimento em um lado afeta outros lados e influencia o todo. Tudo está integrado.

TGS

Na administração temos a Teoria Geral dos Sistemas, do biólogo austríaco Ludwig von Bertalanffy (1901-1972) que dá ênfase para a necessidade de se avaliar a organização como um todo e não somente em departamentos ou setores. Essa teoria dá importância à identificação do maior número de variáveis possíveis, externas e internas que, de alguma forma influenciam em todo o processo existente na organização. A Teoria Geral dos Sistemas busca apresentar uma forma diferente de se ver o todo. Com um caráter amplo e sem especificar uma única área de conhecimento, abrange e conecta o fluxo de processos da organização. Se observarmos à nossa volta, veremos que tudo é composto por sistemas, que por sua vez, podem ser constituídos de subsistemas. Do nosso corpo ao sistema solar, a vida segue interligada e interdependente.

Administração pública

Na administração pública não é diferente, basta observar que ela é composta por sistemas de saúde, educação, transporte, economia, finanças, habitação, trânsito e muitos outros. No centro disso, o cidadão/contribuinte que é mantenedor e usuário de tudo. Até mesmo a divisão de poderes (Executivo, Legislativo, Judiciário) devem seguir uma harmonia sistêmica para que funcionem com eficiência. Alterações e desordens em quaisquer partes, impactam positiva ou negativamente em outras partes e no todo.

A observância e o respeito ao ordenamento sistêmico é ótimo em tempos de normalidade e essencial em tempos extraordinários, quando algo impacta o sistema de forma repentina. Quando algo inesperado ou não planejado, não previsto, adentra um sistema, o todo precisa agir de forma ordenada para buscar as alternativas que preservem tudo o que for possível. Isso exige conhecimento do sistema. No caso da administração pública, conhecer o funcionamento do sistema é imprescindível para tomar decisões eficazes. Pela natureza complexa das decisões públicas, uma única pessoa não terá todas as respostas e o compartilhamento de conhecimentos fará a diferença entre medidas bem sucedidas ou mal sucedidas.

Divisão político-administrativa

A divisão político-administrativa brasileira é composta por 5 grandes regiões: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Essas grandes regiões abrigam 26 Estados, 1 Distrito Federal e 5.570 Municípios. Todos forma a União. Essa divisão visa uma melhor gestão do território e de tudo que o compõem. São fronteiras relativas, visto que todos pertencem ao mesmo país. Até mesmo as fronteiras entre países são convenções humanas que buscam ordenar a ocupação do espaço físico e que deixam de fazer sentido quando compreendemos que somos uma única espécie em todo o planeta. Mas esse texto não pretende embarcar nessa questão. A ideia é falar da parte prática da administração pública e o que pode auxiliar, principalmente, em momentos de crise.

O local

Compreendo o município como o lugar de maior pertencimento de uma pessoa. É no município que a pessoa nasce, vai para escola pela primeira vez e segue sua vida de aprendizados. É num município que uma pessoa cresce, se casa, tem filhos, compra imóvel, morre, é sepultada. Há uma identificação estreita entre pessoas e municípios. Isso não retira a importância das esferas estaduais e federal. Pelo contrário, penso que a elas pertencem decisões mais amplas enquanto as decisões do cotidiano cabem aos municípios. A vida corre é no chão do município. Se faltar escola, hospital ou segurança é mais fácil alguém ir numa prefeitura reclamar com o prefeito do que no Palácio do Planalto para falar com o presidente.

O cidadão paga as contas, mas tem dificuldades de saber onde e como cobrar. A transparência ainda amedronta muitos administradores públicos e poucos investimentos são aplicados nessa área, mas está mudando. Alguns investimentos muito necessários não são feitos porque gerariam um desgaste político grande e quase ninguém quer se indispor com os eleitores, ainda que se trate, por exemplo, de saneamento básico. Isso tende a mudar, ainda que por necessidade e não por vontade política.

Decifra-me ou te devoro

A lenda do enigma diz que essa era a frase lançada pela Esfinge aos viajantes que dela se aproximavam. Muitas são as versões que explicam ou buscam significado para o enigma. Eu vou adaptá-lo às questões públicas e dizer que uma administração pública que não conhece a si mesmo será devorada por todo e qualquer contexto diferente de sua capacidade de enxergar o sistema. A realidade muda a todo instante e isso torna cada contexto diferente do outro.

Alguém que já tenha exercido um cargo importante numa administração pública possui experiência, claro. Mas cada administração pública é única, cada época, mesmo que em datas próximas, possuem demandas e desafios diferentes. Se esse mesmo administrador assumir o cargo de hoje com os olhos voltados para a sua experiência anterior, está fadado a fracassar. O contexto é outro e não se dirige um carro olhando apenas para o retrovisor, embora não possamos abrir mão dessa “espelhinho mágico”.

Imagem

Uma imagem da realidade é imprescindível para que um profissional possa dar um diagnóstico. É nessa lógica que os médicos pedem exames para tratar os pacientes. Se o exame for de qualidade duvidosa ou antigo, não serve, sob risco de que o médico prescreva o tratamento inadequado ao paciente.

A cidade é um organismo vivo. Ela se transforma constantemente diante dos nossos olhos, com ou sem nossa participação direta. Construções são realizadas enquanto outras são demolidas. Estabelecimentos comerciais são abertos e outros encerram suas atividades. Buracos surgem nas vias causados por chuvas ou outras intempéries e assim por diante. Sem uma imagem próxima da realidade não há como um administrador público tomar decisões corretas. Ele até pode acertar em uma ou outra situação ao utilizar sua experiência, mas certamente terá mais chance de erro.

O cidadão como centro das políticas públicas

As políticas públicas são ações que envolvem compromissos e decisões de alcance coletivo e que visam garantir direitos da sociedade. Só se faz política pública de qualidade conhecendo os contextos existentes. As políticas públicas são feitas com o propósito de chegar até as pessoas. Pela ordem, as pessoas estão em primeiro lugar e as políticas públicas precisam seguir as necessidades das pessoas.

Na administração pública brasileira, a pessoa é uma em cada sistema. Eu sou uma para o sistema financeiro e para a Receita Federal (através do meu CPF), outra para o sistema de  registro civil (através do meu RG), outra para o conselho profissional ao qual pertenço (através do número do meu registro profissional), outra para o sistema de saúde (através do meu cartão do SUS), outra para o sistema de trânsito (através da minha CNH), outra para o sistema de identificação e arrecadação do município (através do número do imóvel que possuo), etc.

Essa pluralidade de identificações dificulta um olhar amplo para questões sistêmicas. Afinal, eu sou a mesma pessoa, uma única pessoa. A visão fica estreita, parcial e isso dificulta a tomada de decisões mais adequadas ao sistema como um todo. Em tempos de crise, tudo fica mais complexo porque as variáveis aumentam e os movimentos acarretam consequências em proporções difíceis de medir. Em administração pública, assim como na vida, perder o foco do propósito é um risco.

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