6 Variáveis Básicas da Administração

Depois que comecei a estudar o trabalho de Bert Hellinger passei a perceber a capacidade de conexão entre a INTELIGÊNCIA SISTÊMICA e os conhecimentos que obtive na área da ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA.

Para mim, foi extremamente relevante perceber que eu poderia utilizar os PRINCÍPIOS SISTÊMICOS de Hellinger em conjunto com as teorias de ADMINISTRAÇÃO. Não é uma coisa OU outra coisa. É uma coisa E outra coisa.

Lembrando que INTELIGÊNCIA SISTÊMICA é a capacidade de aplicar os princípios sistêmicos na vida cotidiana. No meu caso, trato especificamente de organizações públicas, mas de fato, algumas técnicas de administração não possuem diferença para aplicação no setor privado ou no setor público. Nesse caso utilizarei mais o termo administração deixando implícito que o raciocínio é o mesmo para a administração pública. Vou tratar aqui de 6 variáveis básicas da administração associadas ao conhecimento das 3 leis naturais de Bert Hellinger: PERTENCIMENTO, ORDEM E EQUILÍBRIO.

Então vamos lá…

A administração PERTENCE a uma ÁREA DE CONHECIMENTO que recebe CONTRIBUIÇÕES de DIVERSAS FONTES, formando DIFERENTES TEORIAS ao longo do tempo.

Cada teoria surgiu num PERÍODO propondo SOLUÇÕES  para os DESAFIOS enfrentados pelas organizações naquele contexto temporal.

Todas as teorias possuem VALOR e são APLICÁVEIS dentro de CONTEXTOS ESPECÍFICOS. A ADMINISTRAÇÃO possui uma natureza VARIÁVEL que se comporta de forma COMPLEXA e SISTÊMICA. Cada variável INFLUENCIA e é INFLUENCIADA o tempo todo.

Dentro dessa perspectiva, as TEORIAS da administração surgem para AUXILIAR na COMPREENSÃO do contexto e ORIENTAR nas DECISÕES organizacionais. As TEORIAS vão sendo ADAPTADAS de acordo com a MUDANÇA dos CONTEXTOS.

As 6 VARIÁVEIS da administração possuem ÊNFASES dadas em cada fase. São elas:

  • TAREFAS: É o foco das teorias que colocam ênfase na racionalização e no planejamento de atividades operacionais. Exemplo de teoria com essa ênfase: Administração Científica (1903).

  • ESTRUTURA: É o foco das teorias que colocam ênfase na estrutura e configuração das organizações. Exemplos: Teoria da Burocracia (1909) e Teoria Clássica (1916).

  • PESSOAS: É o foco das teorias que colocam ênfase nas pessoas e suas atividades dentro da organização. Exemplos: Teoria das Relações Humanas (1932) e Teoria Comportamental (1957).

  • TECNOLOGIA: É o foco das teorias que colocam ênfase na utilização da tecnologia dentro das organizações. Exemplo: Teoria da Contingência (1972).

  • AMBIENTE: É o foco das teorias que colocam ênfase na adequação das organizações ao contexto externo. Exemplos: Teoria dos Sistemas (1951) e Teoria da Contingência (1972).

  • COMPETITIVIDADE: É o foco das teorias que colocam ênfase na capacidade de uma organização oferecer produtos e serviços melhores, mais baratos e mais adequados às necessidades e expectativas do mercado. Exemplo: Teoria das Novas Abordagens (1990).

As variáveis existentes terminam aqui. Mas uma OUTRA variável pode SURGIR… até porque o que ela enfatizaria faz parte da ESSÊNCIA HUMANA e focar nela pode PROPORCIONAR GANHOS sistêmicos para o PLANETA E SEUS HABITANTES. Existem muitas pessoas TRABALHANDO para que ela se torne uma REALIDADE na ADMINISTRAÇÃO. A sétima variável seria (será):

  • COLABORAÇÃO: O foco de uma TEORIA CRIADA a partir da CRISE SANITÁRIA GLOBAL provocada pelo COVID-19. Os GOVERNOS e ORGANISMOS INTERNACIONAIS se uniram para traçar ESTRATÉGIAS de COOPERAÇÃO INTERNACIONAL para questões HUMANAS ESSENCIAIS. Essa TEORIA CRIADA abarca as TEORIAS ANTERIORES e lança um olhar INCLUSIVO, ORDENADO e EQUILIBRADO para as PESSOAS em seus SISTEMAS.

Que se torne real!

 

Referências bibliográficas:

MAXIMIANO, Amaru. Teoria Geral da Administração. Atlas, 2012

CHIAVENATO, Idalberto. Introdução a Teoria Geral da Administração. Elsevier, 2004

O ciclo PDCA com uma pitada sistêmica

E se misturarmos o PDCA com a Inteligência Sistêmica?

Mas o que é PDCA?

O PDCA é uma técnica de administração focada na solução de problemas e na melhoria contínua, muito utilizada no controle de qualidade dos processos. Possui 4 fases que se repetem num ciclo contínuo, identificadas por palavras em inglês, que denominam a ação a ser implementada:

P de Plan (Planejar o que se quer realizar): Antes de começar a planejar é necessário identificar qual será o processo, atividade ou equipamento que será submetido ao ciclo do PDCA. Definido onde será aplicado, é preciso estabelecer qual é a melhoria necessária e definir de forma clara quais as medidas possíveis para alcançar os resultados pretendidos.

D de Do (Fazer o que se planejou): Com o planejamento em mãos, segue-se o roteiro traçado e inicia-se sua implementação das ações estabelecidas.

C de Check (Verificar, medir ou avaliar as ações realizadas): Nessa fase, os resultados obtidos são verificados para, caso necessário, reavaliar o planejamento ou a maneira como as ações foram feitas.

A de Act (Agir corretivamente baseado na verificação): A última fase do ciclo é a ação. Nessa fase, a ação é estruturada após passar pela verificação e correção do que não estava funcionando.

Confusão básica

Uma pergunta que já ouvi muitas vezes é:
“Fazer e agir não são a mesma coisa?”

É muito comum as pessoas se confundirem por considerarem que o Do (fazer) e o Act (agir) seriam a mesma coisa. Entretanto, no caso do PDCA, o fazer significa “fazer de acordo com o planejamento” e o agir significa “agir corretivamente” para alcançar o propósito estabelecido no planejamento.

Inteligência Sistêmica

A Inteligência Sistêmica é uma habilidade alicerçada nos princípios sistêmicos de Bert Hellinger:

  • Pertencimento;

  • Ordem;

  • Equilíbrio

De forma simplificada significa que:

  • Quem (ou aquilo) que pertence precisa ser incluído. E tudo aquilo que for excluído voltará ao sistema de alguma forma;

  • Todos (e tudo) estão numa ordem de acontecimentos e o que chegou primeiro precisa ter seu lugar reconhecido;

  • As relações entre adultos precisam acontecer de forma equilibrada, num fluxo de trocas que mantenha harmonia entre as partes.

Os 3 princípios acima atuam em todos os relacionamentos, inclusive nas organizações.

PDCA pelo olhar sistêmico

Considero possível incluir a fenomenologia apontada por Bert Hellinger em conjunto com o PDCA, essa ferramenta científica de administração. Na obra de Hellinger a fenomenologia é apontada como um método filosófico, que exige autodisciplina, onde ocorre uma outra experiência da verdade diferente daquela usualmente conhecida.

No livro Ordens do amor, encontrado na Editora Atman, Hellinger diz assim na página 14:

“Dois movimentos nos levam ao conhecimento. O primeiro é exploratório e quer abarcar alguma coisa até então desconhecida, para apropriar-se e dispor dela. O esforço científico pertence a esse tipo e sabemos quanto ele transformou, assegurou e enriqueceu o nosso mundo e a nossa vida. (…)

O segundo movimento nasce quando nos detemos durante um esforço exploratório e dirigimos o olhar, não mais para um determinado objeto apreensível, mas para um todo. Assim, o olhar se dispõe a receber simultaneamente a diversidade com que se defronta. Quando nos deixamos levar por esse movimento diante de uma paisagem, por exemplo, de uma tarefa ou de um problema, notamos como nosso olhar fica simultaneamente pleno e vazio. Pois só quando prescindimos das particularidades é que conseguirmos expor-nos em nosso movimento exploratório e recuamos um pouco, até atingir aquele vazio que pode fazer face à plenitude e à diversidade”.

Aplicação do PDCA

O PDCA é um ciclo contínuo em que, assim como na Inteligência Sistêmica, é necessário abrir-se ao sistema e aos fenômenos apresentados para perceber o essencial. Com alguma adaptação, é possível utilizar o PDCA em todos os tipos de organizações e até mesmo em projetos pessoais. Ainda que você não tenha familiaridade com as técnicas de administração ou com a inteligência sistêmica, a simplicidade dos dois conteúdos facilita a utilização deles. Após estabelecer um propósito, é necessário olhar a realidade envolvida e traçar um planejamento para atingir a meta estabelecida. Feito o planejamento, é hora de entrar em ação e colocar o planejamento em prática, fazendo aquilo que é necessário. Num processo contínuo, o próximo passo é checar a eficiência do que foi feito e corrigir o que não estiver produzindo os resultados esperados.

Ao corrigir as ações, volta-se ao processo de planejar, fazer, verificar e agir em busca do mesmo objetivo pretendido ou de novos desafios. Certamente será um processo rico de autoconhecimento e conhecimento do sistema que vai gerar muitos aprendizados. O importante é começar do jeito que for possível, ter disciplina para dar sequência e paciência para errar e aprender. Comece com metas simples para ganhar experiência e ânimo ao longo da jornada. Com a prática, será possível compreender os contextos da vida e do sistema com mais facilidade.

Criar um PDCA agindo com uma postura inclusiva em relação às pessoas e situações, respeito às pessoas (e fatos) que vieram antes e compromisso para equilibrar as trocas nas relações será uma forma de minimizar as dificuldades e riscos de qualquer projeto, facilitando a tomada de decisões.

Na administração pública

Na administração pública não é diferente. Cada um pode se comprometer com a eficiência, contribuir em seu núcleo e dentro das suas possibilidades. Quando o gato do clássico Alice no País das Maravilhas pergunta para onde ela quer ir e Alice responde com um “tanto faz”, o gato logo emenda que “para quem não sabe onde quer ir, qualquer caminho serve”. A administração pública muitas vezes representa o papel da Alice, sem saber para onde vai ou mudando o destino a cada 4 anos.

A administração pública que não faz um planejamento, não estabelece objetivos que sejam específicos, mensuráveis, atingíveis, relevantes e temporais. Isso faz com que os resultados alcançados sejam aceitos como os “melhores possíveis”, mas a realidade é que não existe parâmetro para avaliar a eficiência.

Numa perspectiva sistêmica, em que a arrecadação vem do sacro ofício de todos que contribuem com a vida coletiva, é dever da administração pública cuidar dos recursos com respeitoso primor. O conhecimento e a tecnologia estão aí, à disposição para quem desejar!

 

A China e o coronavírus

Em 30 de dezembro de 2019, um oftalmologista da cidade de Wuhan (China) chamado Li Wenglian enviou mensagem para um grupo de colegas alertando que tinha atendido 7 (sete) pessoas com sintomas semelhantes aos causados pelo vírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave, conhecido pela sigla em inglês SARS e demonstrando sua preocupação com o risco de uma outra epidemia global semelhante a de 2003.

Postura das autoridades

Ao ter acesso a essa informação, o que as autoridades chinesas fizeram? Quatro dias depois do alerta emitido por Li, a polícia intimou o médico a comparecer ao Departamento de Segurança Pública onde o informaram de que ele poderia ser investigado por “espalhar boatos que perturbaram a ordem pública” e recebeu orientações para interromper o envio de “mensagens falsas”. O médico foi “convidado” a assinar um documento em que assumia a culpa por divulgar os “boatos” como forma de encerrar o assunto.

Na sequência dos fatos, o número de casos foi aumentando rapidamente, as autoridades locais reconheceram que a informação de Li estava correta e pediram desculpas públicas. Num roteiro dramático, Li Wenliang começou com tosse em 10 de janeiro, foi ao hospital para se consultar em 12 de janeiro, foi diagnosticado com o vírus em 30 de janeiro (um mês após emitir o alerta sobre o vírus) e faleceu em 06 ou 07 de fevereiro.

Há uma certa confusão sobre a morte do médico, pois inicialmente houve divulgação de que ele havia morrido no dia 06 às 21h30m, hora local. Alguns meios de comunicação publicaram a notícia que posteriormente foi desmentida. Porém, a morte foi novamente divulgada como se tivesse acontecido no início da sexta-feira, dia 07 de fevereiro, às 02h58m.

A desconfiança e seus desdobramentos

Epidemias não são algo novo no mundo, mas a postura das administrações públicas para gerir a crise é o diferencial para definir qual será o tamanho do impacto na população. A administração pública chinesa não investigou o alerta inicial emitido pelo médico Li Wenliang. Pelo contrário, reprimiu seu alerta, que poderia ter evitado muitas mortes, inclusive a do próprio médico.

Há desconfiança internacional de que os casos contabilizados pelo governo chinês estão muito abaixo da realidade. Especialistas internacionais indicam que apenas os casos mais graves estão sendo contados, os números se referem apenas às pessoas que manifestam os sintomas mais graves e que são hospitalizadas. É possível que a contagem oficial esteja desconsiderando as pessoas contaminadas que apresentaram sintomas leves ou que não apresentaram os sintomas. O governo centraliza a divulgação de informações e há relatos de pessoas que foram censuradas pelo governo por postarem casos de doenças na família. Há denúncias de que essas pessoas foram obrigadas pela polícia a apagarem as publicações.

Uma importante revista chinesa chamada Caijing denunciou que nem todos que morrem por coronavírus são incluídos na lista oficial. De acordo com a revista, os casos mais graves são mantidos nos hospitais, os demais são mandados para casa com ordem expressa de se manterem em quarentena. Esses casos de morte em casa não são contabilizados como decorrentes do coronavírus.

A desconfiança generalizada fez com que governos de vários países recomendassem que seus cidadãos saíssem da China ou  que não se deslocassem para lá. Em função do pânico instalado, muitos governos restringiram a entrada de chineses em seus países gerando inclusive, troca de acusações entre o governo chinês e outros governos.

As 5 principais falhas da administração pública chinesa

1 – NEGAR O FATO: As autoridades negaram a existência de um vírus com potencial letal em circulação e ignoraram o alerta do médico Li Wenliang, mais do que isso, houve opção por censurá-lo;

2 – SUBESTIMAR A GRAVIDADE DA SITUAÇÃO: Após admitir a existência da epidemia, as autoridades subestimaram a gravidade da situação e mantiveram alguns casos registrados em segredo;

3 – FALTA DE TRANSPARÊNCIA: O governo chinês prometeu transparência nas informações, mas em razão do elevado número de críticas suspendeu a liberdade de comunicação, redirecionou os esforços para o controle das mídias e da internet e reduziu as informações oficiais, dificultando o trabalho dos governos de outros países e de entidades internacionais de saúde;

4 – DEMORA EM AGIR: Ao demorar para admitir a epidemia e tomar as providências mais adequadas, a comunidade internacional não foi devidamente avisada fazendo com que a intensa circulação de pessoas que estiveram na China ou em contato com pessoas infectadas possibilitasse a propagação do vírus pelo mundo.

5 –  INEFICIÊNCIA NO COMBATE AO VÍRUS: Surgiram denúncias de que máscaras, trajes, óculos de segurança e outros materiais de proteção doados aos chineses não estavam chegando aos locais necessários. As denúncias eram de que médicos e profissionais de saúde precisavam improvisar máscaras e trajes de proteção e ficavam vulneráveis ao tratar os doentes enquanto políticos e altos servidores estatais utilizavam proteção de qualidade comprovada.

Mudança de rumo

Os números crescentes pressionaram o governo chinês a mudar a conduta. Vários administradores públicos diretamente envolvidos no controle local da questão foram demitidos pelo governo central. O método para contabilizar os casos de infecção mudou no dia 13 de fevereiro e isso fez com que o número de mortes passasse para 1300 e o de infectados saltasse para quase 60 mil pessoas. As autoridades chinesas tentam explicar que as mudanças são para promover mais agilidade no tratamento das pessoas infectadas, mas o efeito foi de insegurança internacional e medo de que o governo chinês desconheça a realidade da epidemia.

Um olhar estreito para um problema sistêmico

Diante da epidemia inicial, a administração pública chinesa lançou seu olhar somente para uma parte do sistema, a economia. Com o intuito de preservar a economia, o sistema todo foi colocado em risco. Sobrou crítica até mesmo para a Organização Mundial de Saúde – OMS por ter comemorado a estabilização do número de casos quando a realidade parece ser a não divulgação dos números. A OMS está sendo pressionada a cobrar um posicionamento claro e transparente por parte da China.

A importância econômica da China para o mundo demonstra que estamos inseridos num sistema global. Na tentativa de conter a epidemia, muitas cidades chinesas estão com suas indústrias e comércios paralisados, impactando a economia local e de todos os países que fazem negócios direta ou indiretamente com a China. Especialistas já estimam redução no PIB e na expectativa de crescimento da economia chinesa para 2020. Se confirmado, isso significará uma reação negativa da economia mundial.

Saúde, China!

A situação do momento envolve instabilidade nas bolsas de valores, importações e exportações comprometidas, redução na produção industrial, impacto no turismo, redução do consumo, etc. O mundo está em alerta pela China. Somos todos elos da mesma corrente. Quando uma parte adoece, a melhor alternativa é mobilizar as partes saudáveis para ajudar. Confiança e colaboração são estratégias eficientes de sobrevivência humana desde que o mundo é mundo – que as administrações públicas fiquem cientes disso. Que possamos aprender com os erros e acertos dessa jornada que ainda não terminou.

 

 

 

 

Nossa caminhada até aqui

A vida vem de longe, muitos empreenderam esforços imensos para sobreviverem em condições adversas para que cada geração que viesse tivesse oportunidades melhores. Se você está lendo esse texto é porque está vivo, pelo menos assim espero… rsrsrs… O encontro de um homem e uma mulher fez com que você tivesse a chance de viver nesse mundo. No livro Amor à segunda vista, na pág. 177, Bert Hellinger nos demonstra a postura adequada de um filho para com seus pais:

“Com reverência. O filho olha para os pais e olha através dos pais para um passado longínquo, de onde a vida vem originalmente. Quando toma a vida, toma a vida não apenas dos pais e sim de longe. Por isso, todos os pais são certos. Sob esse ângulo não existem pais melhores e piores. Existem apenas pais”.

 

Há 70 mil anos os sapiens se espalharam a partir da África. Inicialmente a comunicação entre os indivíduos era mais próxima do gestual, isso limitava a capacidade de trocas de informações e de liderança. Uma comunicação rústica dificultava o comando por parte do líder obrigando os indivíduos a se juntarem em grupos menores para que a sobrevivência fosse possível. Um líder não conseguiria comandar uma grupo grande utilizando a linguagem gestual porque era necessário proximidade física para que a informação fosse compreendida.

Com o aprimoramento da linguagem e o desenvolvimento da fala, a liderança pode ser ampliada. Um líder poderia dar um comando para um indivíduo que por sua vez, faria a transmissão aos outros. O surgimento da oralidade passou a possibilitar a existência de grupos maiores.

O advento da escrita ampliou ainda mais a capacidade de comunicação e de liderança. Através da escrita foi possível a formação dos primeiros reinos, a propagação do uso do dinheiro e a expansão do politeísmo no mundo. Com a evolução da escrita, os reinos se transformaram em grandes impérios e as religiões monoteístas ganharam espaço e importância. A escrita permitiu que os comandos fossem repassados a  um número maior de pessoas com nível menor de distorção. Passou a ser possível governar a longa distância com as ordens passadas através de mensageiros. Nesse período, estima-se que a população mundial era de aproximadamente 300 milhões de pessoas.

Por volta de 1450, o alemão Johannes Gutemberg inventou a prensa. Com base nas prensas de vinho ele criou um produto que revolucionou a comunicação humana e a capacidade de comandar. A escrita impressa continha a evolução da escrita por proporcionar a comunicação a longa distância acrescida do aumento significativo de pessoas acessadas através de um texto. Ao ser possível dar ordens para mais pessoas e a longa distância, a capacidade de governar se transformou rapidamente. A escrita impressa representou um marco na revolução científica fazendo com que a disponibilização do conhecimento democratizasse o aprendizado. Houve um desenvolvimento vertiginoso na produção da ciência trazendo expansão em diversas áreas, destacando-se medicina, educação, engenharia, economia e administração. O conhecimento produzido proporcionou melhoria na condição de vida da população aumentando cada vez mais o número de habitantes no planeta.

Em 1600 éramos 600 milhões e 200 anos depois passamos a ser 1 bilhão de habitantes. Após 27 anos, em 1827, já éramos 2 bilhões. Fico particularmente impressionada com essa parte do crescimento populacional, demoramos 200 anos para avançar 400 milhões de pessoas e em apenas 27 anos crescermos 1 bilhão de pessoas. A comunicação começou a se tornar digital na década de 1990 e a população seguiu em crescimento. As redes sociais passaram a ocupar o tempo e a atenção das pessoas, transformando a vida cotidiana radicalmente. A tecnologia tomou conta de tudo enquanto o aumento demográfico da população mundial seguia adiante. De bilhão em bilhão, em 2019 chegamos aos 7,7 bilhões de habitantes num contexto de vida completamente diferente do que já existiu. Para muitas questões, não temos parâmetros suficientes para projetarmos o futuro. As novas gerações, especialmente os nascidos após o ano 2000, estão habituados aos equipamentos eletrônicos como uma extensão de si mesmos. Quem nasceu antes navega com alguma (ou muita) dificuldade pelos novos hábitos de vida.

Como olhar a administração pública nessa perspectiva?

Se tivermos um olhar amplo em relação ao tempo poderemos admitir que a administração começou muito antes da administração científica de Frederick Taylor , Henri Fayol, Henry Ford e outros. Claro que é difícil retroagir com nossas observações e apontar evidências de utilização de técnicas de administração. Mesmo sem haver a consciência dessa prática, arrisco-me a apontar poucas evidências que podem tornar o nosso olhar um pouco diferente:

  • Os sapiens da África exerciam uma liderança capaz de manter a organização coletiva, mesmo que de forma inconsciente. Longe de ser científica, apenas fazendo uma brincadeira com fundo de verdade, é possível dizer que havia planejamento, análise de risco, divisão de tarefas, trabalho em equipe, busca por inovação e outros elementos que caracterizam a administração moderna. Escolher um lugar seguro para permanecer, ainda que temporariamente, ter percepção apurada para realizar deslocamentos por locais que oferecessem menos risco e cuidar para manter a integridade física dos indivíduos possuem uma leve semelhança com elementos da administração pública voltados para planejamento habitacional, mobilidade e segurança pública.

  • Os profetas guiavam as pessoas em nome de Deus, caracterizando uma longa fase teocrática da administração, através de pessoas, ordens ou religiões instituídas.

  • As ordens de cavaleiros e grupos similares, assim como os exércitos e organizações militares foram estruturadas sobre técnicas administrativas que foram descritas e melhor elaboradas pela administração científica posteriormente.

  • Ideias de Confúcio influenciaram a organização social e estatal chinesa por muitas dinastias.

  • No Egito, Claudio Ptolomeu projetou mapas e planejou a representação de superfície iniciando técnicas que mais tarde seriam aperfeiçoadas e utilizadas na geografia. Os estudos de Ptolomeu com informações territoriais e habitacionais assemelham-se ao cadastramento geoespacial da atualidade.

  • Todos os grandes reinos e impérios antigos possuem evidências de utilização das técnicas de administração pública, como controle populacional, regras de imigração, cobrança de tributário, etc.

Sem a intenção de tornar o texto um relato histórico, podemos perceber que a administração e a administração pública vieram de longe e atravessaram o tempo junto com a humanidade. Estamos em 2019 e se olharmos sistemicamente para o passado, podemos perceber que cada geração fez o que foi possível para sobreviver. Não está em nossas mãos o poder de emitir julgamentos sobre as atitudes de gerações anteriores. O passado é imutável. Jan Jacob Stam disse algo interessante no livro A Alma do Negócio, pág. 62:

“O reconhecimento da situação tal como ela é nos coloca em contato com a realidade e torna o novo possível, mas não podemos dizer o mesmo a respeito de sonhos, ilusões, imagens internas, reclamações e acusações. Essas coisas nos paralisam, nos tiram do essencial e nos impedem de agir”.

Olhar a linha do tempo pela ótica sistêmica coloca-nos diante da realidade e da obrigação de assumirmos nossas culpas individuais e coletivas. Enquanto desonramos os antepassados por aquilo que entendemos como errado ou mal feito nós deixamos de realizar aquilo que nos cabe. Mal ou bem, foram esses antepassados que nos trouxeram até aqui. Foi através deles que a vida chegou até nós. Foi esse o mundo possível que recebemos.

E nós, que mundo deixaremos?

Que sejamos capazes de reconhecer e honrar o que (e quem) nos antecedeu, do jeito que foi, com a humildade que fortalece e empurra para o futuro. E que eles, com sua força, nos ajudem a fazer um pouco diferente. Encerro com um pensamento denso de Bert Hellinger, contido na pág. 64 do livro Constelações Familiares:

“Quando a pessoa se submete ao todo, ela sente algo parecido com uma força que a sustenta. Mas é uma força que também traz sofrimento. O que faz o mundo girar não é a nossa felicidade, mas algo muito diferente. Para tanto fomos chamados à serviço”.

 

 

Desordens sistêmicas – Parte 1

A primeira Lei Natural descoberta por Bert Hellinger é o Pertencimento. Nós, sapiens, temos a necessidade natural de pertencer e nos sentimos mal quando não nos é permitido fazer parte de um grupo do qual queremos participar. Empreendemos todos os esforços possíveis para que possamos ser incluídos em grupos que nos importam. Basta observar como nos identificamos e nos apresentamos:

  • Meu nome/sobrenome é …

  • Nasci em …

  • Sou formada em …

  • Trabalho na …

  • Frequento a igreja …

  • Torço para o time …

  • Sou sócia do clube …

  • Sou filiada ao partido …

  • Sou a favor de …

  • Sou contra …

 

 

Aqui dentro

A lista não termina aí, mas já consigo passar uma ideia do quanto somos seres de grupo, o quanto nossa identidade é construída sobre alicerces ligados ao pertencimento. Não há nada de errado nisso, realmente somos seres surgidos através da ação de outros. Se estamos aqui é porque nossos pais se uniram nos dando vida e no momento da concepção já somos um grupo (um sistema) composto por três pessoas. Caso existam outros filhos, o sistema familiar será maior de acordo com o número de irmãos. E ainda existem nossos ascendentes: avós, bisavós, etc. Esse é o nosso sistema de origem, nele há um modus operandi instalado e desde os primeiros momentos somos ensinados sobre o que é aceito e o que não é aceito. Ao longo da vida vamos aprendendo, pelos efeitos observados nas reações de aceitação e de recusa das pessoas em volta o que é permitido e o que não é. Quando nos comportamos de acordo com as regras temos uma sensação de conforto e de consciência leve. Quando nos comportamos de maneira que nosso sistema não aprova, ficamos desconfortáveis de consciência pesada. Partimos para o mundo com os aprendizados obtidos no nosso sistema de origem. Nossos relacionamentos do “lado de fora” serão muito semelhantes aos nossos relacionamentos “do lado de dentro”.

Lá fora

O mundo é muito maior do que o nosso sistema de origem e a forma de agir no grupo familiar limita nossas relações fora dele. As outras pessoas, nascidas em outros sistemas familiares também são ensinadas a se comportarem de acordo com as regras de seus grupos. No momento em que crescemos e passamos a frequentar outros sistemas, somos confrontados com permissões e proibições diferentes daquelas que aprendemos em casa. Somos desafiados a ajustar nossos comportamentos para que possamos viver em harmonia com os demais, mas a tendência é acharmos estranho a forma com que os outros se comportam.

Meu X Seu

Em geral, julgamos, criticamos e desvalorizamos os comportamentos que não estão de acordo com a forma que nos ensinaram. É aí que começam inúmeros problemas de relacionamentos. Consideramos certo apenas o nosso jeito de pensar – falar – fazer – amar – cuidar e sei lá mais o quê… Agimos como se tivéssemos o poder de definir quem tem o direito de pertencer e excluímos quem se comporta de forma diferente de nós.

 

A distorção por acreditar que aquilo que EU trago de casa é melhor do que aquilo que o OUTRO traz é uma desordem sistêmica. São posturas inconscientes e que podem ser percebidas e alteradas.

Família e organização

Família e organização são sistemas que guardam semelhanças e diferenças. Nos dois tipos de sistema o pertencimento é estabelecido através do vínculo. Em um sistema familiar o vínculo é permanente e pode ser:

  • De sangue: estabelecido através do parentesco entre irmãos (e meio-irmãos), pais (e seus irmãos e meio-irmãos), avós (e seus irmãos e meio-irmãos) e assim sucessivamente;

  • De destino: estabelecido com pessoas que tiveram qualquer contato marcante com o sistema e que tenham gerado alguma vantagem / desvantagem significativa. Por exemplo: Alguém que não é da família e deixou uma herança beneficiando o sistema, pertence. Alguém que salvou a vida de um membro da família, pertence. Alguém que causou um prejuízo financeiro provocando dificuldades à família, pertence. Alguém que atropelou (e matou) acidentalmente um membro da família, pertence.

Em uma organização, todas as pessoas que trabalharam nela são consideradas, algumas possuem um vínculo temporário e outras possuem um vínculo permanente. O vínculo é temporário para as pessoas que se ligaram a organização, executaram suas tarefas e depois de um determinado tempo deixaram de fazer parte. O vínculo é permanente para os fundadores, pessoas e elementos que contribuíram significativamente com o desenvolvimento da organização.

Uma organização existe pela união de várias partes. Vejamos o que diz Jan Jacob Stam, no livro A Alma do Negócio, pág. 16:

“Como um sistema, uma organização existe a partir de várias partes: das pessoas que lá trabalham, dos clientes, dos produtos e serviços, do objetivo e de muitos outros elementos”.

Na administração pública

Sem querer ser reducionista e já sendo, a sociedade é composta por contribuintes e, dentre esses contribuintes alguns se tornam agentes públicos. Os agentes públicos assumem a função de zelar pelo bem comum e pelos interesses da coletividade, mas continuam sendo contribuintes.

A administração pública é um grande sistema de relacionamento humano onde observamos a atuação do pertencimento em larga escala: o MEU partido e o SEU partido, a MINHA ideologia e a SUA ideologia, a MINHA interpretação da lei e a SUA interpretação da lei, etc. Observamos que essas posturas fazem com que uma parte do sistema sempre fique à margem do processo administrativo. É como se a gestão tivesse que ser exercida apenas com alguns membros do sistema porque os OUTROS não são confiáveis. Na pág. 113 do livro Histórias de Sucesso na Empresa e na Profissão, Bert Hellinger afirma algo para as famílias que também pode ser aplicado à administração pública:

“… há um todo que fica inteiro e permanece inteiro se todos aqueles que fazem parte dele forem valorizados como fazendo parte. Nas famílias está claro: assim que alguém for excluído, a família se sente incompleta. Cai na desordem e perde força”.

Sem pretensão de generalizar, descrevo situações observáveis na administração pública que contribuem para desordenar o sistema. Você não precisa concordar com a minha forma de ver, aliás, desconfie das minhas colocações. Mas sugiro que observe com um olhar neutro (sem medo, sem intenção, sem julgamento e abrindo mão do seu conhecimento prévio do assunto). É possível que você se surpreenda com suas percepções.

Algumas desordens observadas

  • Contribuintes excluídos do sistema da administração pública, como se não fizessem parte, como se fossem um incômodo;

  • Pessoas competentes excluídas por não pertencerem ao grupo de quem está no comando;

  • Pessoas que pertencem ao grupo que está no comando ocupando cargos de relevância na administração pública mesmo sem possuir a qualificação técnica necessária;

  • Políticas públicas direcionadas para localidades e grupos que apoiaram o grupo que está no comando.

Outra perspectiva

Na perspectiva sistêmica, a soma das partes dá origem a algo maior, com movimentos próprios. O sistema trabalha numa dinâmica que atua pelo todo e isso significa que não é permitida a inobservância dos princípios sistêmicos (pertencimento, ordem e equilíbrio) por nenhuma das parte. Quando isso ocorre o sistema entra em movimento para se restabelecer, ainda que isso cause transtornos individuais.

‘A consciência de grupo não conhece justiça para os descendentes, mas somente para os ascendentes. Obviamente, isso tem a ver com a ordem básica dos sistemas familiares. Ela atende à lei de que aquele que pertenceu uma vez ao sistema tem o mesmo direito de pertinência que todos os outros. Mas, quando alguém é condenado ou expulso, isso significa: “Você tem menos direito de pertencer ao sistema do que eu”. Essa é a injustiça expiada através do emaranhamento, sem que as pessoas afetadas saibam disso’.

A citação acima está contida no livro Constelações Familiares, pág. 14. Neste livro, Bert Hellinger concede uma entrevista à Gabriele ten Hövel cuja leitura eu recomendo para quem se interessar pelo tema. No caso da inobservância da Lei Natural do Pertencimento, o sistema trabalhará para trazer de volta a parte excluída. Muitas vezes, as exclusões são feitas de forma inconsciente, mas isso não minimiza os efeitos causados por ela. Uma dinâmica muito comum em organizações é a repetição do padrão de comportamento da pessoa/grupo excluído. Explico melhor, alguém se comporta de modo não permitido pelas regras de comportamento e é excluída. Posteriormente, outra pessoa assume o comportamento do excluído sem necessariamente terem se conhecido ou trabalhado juntos. O sistema traz de volta a exclusão para que todos possam vê-la e aprender algo. Quando excluímos alguém do sistema, perdemos as informações importantes que estão com ele e que ampliariam nossa capacidade de relacionamento.

A simplicidade na compreensão das Leis Naturais irrita muitas pessoas, chega a ser engraçado. A solução para as desordens de pertencimento é a inclusão. Reconhecer a pertinência sem crítica, julgamento, condições ou cara feia. Os outros estão vinculados em seus sistemas, fazendo aquilo que é possível naquele momento. Ao emitirmos uma opinião ou fazermos qualquer tipo de julgamento ainda que sem verbalizarmos, estamos sentados confortavelmente sobre nossas facilidades e apontando o dedo para as dificuldades alheias.

Reconhecer que o outro pertence e tem seu valor não é nada complicado. Entretanto, isso exige de nós a humildade de não nos colocarmos como mais valorosos do que os outros. Exige abrir mão de uma sensação de mais valia que nos infla o peito. Precisamos ter coragem de encontrar os pré-conceitos escondidos em nossas profundezas e abrir mão deles para nos relacionarmos com as pessoas.  Ao fazermos isso, veremos a vida valiosa que habita no outro, assim como em nós. E perceberemos que a vida de todos é digna e merece respeito. No fim das contas, cada um de nós é uma pequena parte do todo, ligados por uma força que tudo conhece.

Eu vejo assim, e você?

 

Imagem de capa: Adobe Spark

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