A força da postura

Minha rotina começa cedo e hoje não foi diferente. Acordei e e entre tomar café e me arrumar para sair dei uma olhada nas notícias do dia. Uma delas me deteve:

Postei prints da tela nos stories do Instagram e percebi que houve um engajamento sobre o tema. O vento que soprou aqui estava soprando em outros lugares. Então, me dediquei a refletir mais atentamente sobre a questão. O que me moveu e moveu o meu entorno?

No dia 23 de agosto de 2020, Jakob Blake, um homem negro de 29 anos foi baleado sete vezes pelas costas pela polícia do estado de Wisconsin. Ele tentava separar uma briga entre duas mulheres quando foi abordado pelos policiais. Até o momento em que escrevo o texto, ele está internado em estado grave. No dia 26 de agosto de 2020, três jogos da liga norte-americana masculina de basquete foram cancelados por protesto dos jogadores causado pelo que ocorreu a Blake.

Sterling Brown, jogador do Milwaukee Bucks, time que representa o estado de Wisconsin, leu um comunicado do time que se recusou a entrar em quadra contra o Orlando Magic fazendo com que a partida fosse suspensa. Pouco depois a Liga anunciou a suspensão de outros jogos.

A escolha de Brown para ler o comunicado se deve muito ao fato de que em 2018 ele foi detido supostamente por resistir a uma abordagem policial. Meses depois um vídeo revelou que ele não tinha oferecido nenhuma resistência e mesmo assim, recebeu choque da polícia. A mensagem dos jogadores foi clara:

“Nosso foco hoje não pode estar no basquete.”

Os Bucks entraram em contato com as autoridades de Wisconsin e, através de uma vídeo-conferência com o vice-governador do estado, Mandela Barnes, cobraram respostas sobre o fato. O vice-governador convocou a câmara legislativa para votar um pacote que inclui a reforma policial.

O protesto ganhou o apoio do sindicato dos atletas, da associação dos técnicos e foi ganhando força. A liga feminina também cancelou jogos e as atletas se ajoelharam de braços dados na quadra. Extrapolando as linhas das quadras de basquete, houve adesão na liga norte-americana de beisebol e os jogadores também decidiram não disputar partidas marcadas. A tenista japonesa Naomi Osaka, nº 10 do mundo, anunciou que não disputará a semifinal do torneio em Cincinnati. Partidas de futebol também foram adiadas na liga norte-americana como reflexo da onda de protestos dos jogadores.

Já vimos outros protestos antes. O movimento “Black Lives Matter” está ativo em vários países do mundo, principalmente após a morte de Geoge Floyd. Mas essa é a primeira vez que a liga de basquete suspende jogos por uma causa social. Podemos dizer que o esporte parou nos Estados Unidos e isso tem um significado enorme pelo impacto financeiro e midiático que isso pode provocou. Algo me parece ter mudado.

O que me alcança nisso tudo é o quanto estamos em sistemas. Um homem foi baleado nos Estados Unidos e eu nem fiquei sabendo. Mas o fato movimentou jogadores de basquete, que optaram por fazer um protesto inédito. Essa decisão tomou força e outros atletas aderiram à manifestação. O protesto virou notícia e eu, no interior do Brasil estou refletindo sobre o alcance de uma postura. Cada um tem um lugar no mundo e, desse lugar, cada pessoa pode dar a sua contribuição. Cada vez mais podemos perceber que ações locais podem ter impactos globais. Concorde ou não, assim a realidade está posta.

 

A administração pública que temos

Qual é a administração pública que temos? Temos uma administração pública em transição, que se transforma a cada dia. Nosso histórico em administração pública abarca uma cultura de separação entre os agentes públicos e os contribuintes, com pouco ou nenhum controle social, mas isso está mudando aos poucos.

A administração pública brasileira passa por momentos complexos envolvendo as questões econômicas e sociais, assuntos políticos que são constantemente polarizados, debates sobre reformas e pautas complexas que tramitam no Congresso, assuntos sanitários, temas ambientais que envolvem a Amazônia e a sustentabilidade, problemas de toda ordem enfrentados pelos nossos vizinhos sul-americanos que incluem emigração em massa para o Brasil, julgamentos importantes no Superior Tribunal Federal – STF e no Superior Tribunal de Justiça – STJ, dentre outras relevâncias.

As reportagens sobre corrupção e desvios de recursos públicos formam manchetes que bombardeiam os cidadãos diariamente em todos os canais de comunicação e culminam num abalo da confiança tão necessária para o avanço da sociedade. Em tempos de polarização, muitos não se sentem representados por quem está no comando da administração pública, que não raramente, perde-se no seu propósito de servir à sociedade.

A complexidade das questões públicas demanda a união de esforços coletivos dos diversos setores que compõem a sociedade. É ilusão acreditar que há uma pessoa (ou grupo) que tem o poder e a chave para resolver todos os conflitos. Não há uma única pessoa assim como não há uma única solução para tudo. Há um conjunto de pessoas que podem empreender um conjunto de ações colaborativas para cada contexto.

Destaca-se que essa colaboração conjunta precisa ser baseada em ações transparentes que permitam o crescimento da confiança mútua. O uso de modernas técnicas de administração que promovam a reestruturação da máquina pública aliado ao investimento em tecnologias e desenvolvimento humano são necessidades urgentes para enfrentar o contexto atual. É impossível começar do zero, visto que já existe um sistema consolidado e em funcionamento. Honrar aquilo que foi feito e reconhecer os esforços empreendidos demonstra respeito com quem dedicou seu tempo para fazer o que foi possível em tempos anteriores. Acolher os erros do passado e aprender com eles é uma postura sábia. Se agora é necessário inovar, que as mudanças aconteçam sem desqualificar o passado e as pessoas que lá estiveram. Pelo contrário, fazer do passado uma escola que nos impulsione e dê forças.

A tecnologia digital está trazendo transformações em escala global e o papel dos diversos atores sociais, em especial os agentes públicos e contribuintes está sendo remodelado. Qual é o lugar de cada um no sistema da administração pública? Não se pretende aqui enumerar as técnicas de administração sobre O QUE deve ser feito. Entretanto, pode-se demonstrar COMO utilizar habilidades de relacionamento para atingir os objetivos pretendidos coletivamente.

O aumento populacional aliado ao estilo de vida adotado pela humanidade está dificultando a harmonia nos relacionamentos e talvez por isso, vejamos tantas pessoas interessadas em estudar para compreender  a si mesmas e os demais. Por estarmos imersos num grande campo de relacionamento, e essa premissa é válida também para a administração pública, melhores relacionamentos significam melhor qualidade de vida.

Destaca-se ainda que a administração pública brasileira é fragmentada e carente de conexão e comunicação intersetorial. Apesar de possuir uma hierarquia bem definida, a dificuldade de flexibilização causada pela burocracia dificulta a resolução de problemas aparentemente simples. A transição democrática e a alternância de mandatos de quatro em quatro anos criaram uma cultura de planejamentos de curto prazo, isso quando existem na prática porque muitos municípios possuem carência de mão-de-obra tecnicamente preparada para as funções do executivo, legislativo e judiciário. Cada grupo que assume o comando tende a desconsiderar o trabalho anterior, principalmente em caso de descontinuidade partidária, fazendo com que as políticas públicas aparentem estar sempre em fase inicial de execução. Essa dinâmica ocorre num movimento do topo para a base hierárquica na pirâmide de poder e faz com que até os problemas rotineiros no contato agente público – cidadão pareçam sem solução.

Aponto que uma prática ainda vigente é a de uma população que confere poder ao agente público eleito através do voto e aguarda em casa que as transformações aconteçam e, caso não aconteçam, um possível acerto de contas fica para a próxima eleição. Ainda que o sistema dificulte a participação coletiva, que a concentração de poder na esfera da União dificulte a fiscalização, a postura de que somente um dos lados seja o polo ativo e tem o poder de provocar a mudança enquanto o outro está na esfera exclusiva da necessidade aguardando passivamente que algo aconteça desequilibra o sistema. A mudança passa pela procura de novas posturas centradas na autorresponsabilidade e no compromisso com o futuro coletivo. Sempre é hora de começar!

Pausas

Uma das frases ditas por Carlos Drummond de Andrade me ocorreu agora.

“A vida necessita de pausas.”

Sou servidora pública no interior de Minas Gerais e estive na capital para um curso de dois dias. Saí de casa sem a verdadeira compreensão da realidade do Coronavírus e já em Belo Horizonte fui sendo tomada pela dimensão da pandemia. Confesso que até então, não estava tão consciente da necessidade de isolamento apesar de toda a divulgação que já ocorria na mídia. Tudo me parecia um tanto distante.

Nos poucos dias em que estive em BH o número de casos suspeitos foi aumentando e diversas medidas de segurança foram tomadas pelas administrações públicas municipais, estaduais e federal. Ao retornar para casa encontrei um decreto municipal determinando que os servidores que estiveram viajando por locais onde houvesse contaminação comunitária do Coronavírus deveriam comunicar seu órgão de lotação e permanecer em isolamento domiciliar por sete dias. Era o meu caso.

A medida tomada pelo Município é correta e não há o que falar sobre isso, ainda que eu não tenha apresentado qualquer sintoma. É uma prevenção. Entretanto me senti impactada. Recebi um “stop”. O que fazer com o tempo que seria dedicado ao trabalho? Como permanecer em isolamento domiciliar por “tanto” tempo. Como desacelerar? Resposta simples, suspendendo temporariamente os movimentos do corpo e da alma.

Planeta em modo slow

Enquanto o Coronavírus avança e as cidades entram em quarentena, as imagens dos satélites mostram a melhora da qualidade do ar nesses locais. A pausa global está promovendo a redução da poluição do ar na China (região de Wuhan) e na Itália (região norte). Li que a queda na circulação de veículos e a redução das atividades industriais são as causas prováveis desse fenômeno. A quarentena imposta na Itália também está sendo responsável pela diminuição da poluição da água nos canais de Veneza que livres da circulação intensa de embarcações, estão com suas águas mais limpas.

Eu vi reportagens mostrando que macacos famintos causaram tumulto nas ruas de uma cidade tailandesa. Nesse local existem mais de 3 mil macacos e eles são uma das atrações turísticas exploradas na região. Os turistas alimentavam os animais e com a ausência de visitantes os macacos invadiram as ruas brigando por comida.

Não há como negar, a vida é sistêmica. Tudo está ligado de alguma forma tornando-se interdependente e nada pode ser analisado separadamente. Estamos em um grande sistema chamado planeta Terra.

O que ando fazendo

Em casa e com tempo. Entre outras coisas, lavei roupas e arrumei armários. Hoje fiz várias atividades de casa, dei sequência na leitura de um livro e ainda sobrou tempo para a internet. A sensação de que o tempo está em câmera lenta me tomou o corpo e aguçou meus sentidos. Nesse momento (23:40) meu vizinho de 5 anos canta (bem alto) na janela “brilha brilha estrelinha quero ver você brilhar”. Se não fosse esse momento corona, provavelmente eu não ouviria esse concerto porque ele e eu já estaríamos dormindo.

Existem pausas necessárias e essa é uma delas. Estamos todos aprendendo com o momento, inclusive os administradores públicos. Na dúvida sobre qual é o grau correto para impor restrições, melhor pecar pelo excesso. Vamos exercitar a paciência e o domínio próprio para compreender que a situação exige a participação de todos. Percebo que as coisas serão diferentes após essa experiência.

O que já estou vendo

Vejo que já estamos mais atentos aos nossos hábitos, incluindo a higiene. Muitas pessoas estão sendo mais solidárias, em especial com os idosos. Por não podermos estender a mão num cumprimento, estamos oferecendo mais sorrisos e inclinando a cabeça e o corpo numa reverência respeitosa. Há um certo silêncio nas ruas. Estamos reconhecendo o valor do trabalho de vários profissionais. Estamos nos tornando um pouco mais conscientes dos nossos limites.

Eu vejo um vírus que não faz nenhuma distinção entre países, pessoas, desenvolvimento econômico, classes sociais, etnias, gêneros, religiões ou ideologias. Se prestarmos atenção, ele está nos ensinando muitas coisas. Que essa experiência nos dê profundidade! É o que desejo.

O ciclo PDCA com uma pitada sistêmica

E se misturarmos o PDCA com a Inteligência Sistêmica?

Mas o que é PDCA?

O PDCA é uma técnica de administração focada na solução de problemas e na melhoria contínua, muito utilizada no controle de qualidade dos processos. Possui 4 fases que se repetem num ciclo contínuo, identificadas por palavras em inglês, que denominam a ação a ser implementada:

P de Plan (Planejar o que se quer realizar): Antes de começar a planejar é necessário identificar qual será o processo, atividade ou equipamento que será submetido ao ciclo do PDCA. Definido onde será aplicado, é preciso estabelecer qual é a melhoria necessária e definir de forma clara quais as medidas possíveis para alcançar os resultados pretendidos.

D de Do (Fazer o que se planejou): Com o planejamento em mãos, segue-se o roteiro traçado e inicia-se sua implementação das ações estabelecidas.

C de Check (Verificar, medir ou avaliar as ações realizadas): Nessa fase, os resultados obtidos são verificados para, caso necessário, reavaliar o planejamento ou a maneira como as ações foram feitas.

A de Act (Agir corretivamente baseado na verificação): A última fase do ciclo é a ação. Nessa fase, a ação é estruturada após passar pela verificação e correção do que não estava funcionando.

Confusão básica

Uma pergunta que já ouvi muitas vezes é:
“Fazer e agir não são a mesma coisa?”

É muito comum as pessoas se confundirem por considerarem que o Do (fazer) e o Act (agir) seriam a mesma coisa. Entretanto, no caso do PDCA, o fazer significa “fazer de acordo com o planejamento” e o agir significa “agir corretivamente” para alcançar o propósito estabelecido no planejamento.

Inteligência Sistêmica

A Inteligência Sistêmica é uma habilidade alicerçada nos princípios sistêmicos de Bert Hellinger:

  • Pertencimento;

  • Ordem;

  • Equilíbrio

De forma simplificada significa que:

  • Quem (ou aquilo) que pertence precisa ser incluído. E tudo aquilo que for excluído voltará ao sistema de alguma forma;

  • Todos (e tudo) estão numa ordem de acontecimentos e o que chegou primeiro precisa ter seu lugar reconhecido;

  • As relações entre adultos precisam acontecer de forma equilibrada, num fluxo de trocas que mantenha harmonia entre as partes.

Os 3 princípios acima atuam em todos os relacionamentos, inclusive nas organizações.

PDCA pelo olhar sistêmico

Considero possível incluir a fenomenologia apontada por Bert Hellinger em conjunto com o PDCA, essa ferramenta científica de administração. Na obra de Hellinger a fenomenologia é apontada como um método filosófico, que exige autodisciplina, onde ocorre uma outra experiência da verdade diferente daquela usualmente conhecida.

No livro Ordens do amor, encontrado na Editora Atman, Hellinger diz assim na página 14:

“Dois movimentos nos levam ao conhecimento. O primeiro é exploratório e quer abarcar alguma coisa até então desconhecida, para apropriar-se e dispor dela. O esforço científico pertence a esse tipo e sabemos quanto ele transformou, assegurou e enriqueceu o nosso mundo e a nossa vida. (…)

O segundo movimento nasce quando nos detemos durante um esforço exploratório e dirigimos o olhar, não mais para um determinado objeto apreensível, mas para um todo. Assim, o olhar se dispõe a receber simultaneamente a diversidade com que se defronta. Quando nos deixamos levar por esse movimento diante de uma paisagem, por exemplo, de uma tarefa ou de um problema, notamos como nosso olhar fica simultaneamente pleno e vazio. Pois só quando prescindimos das particularidades é que conseguirmos expor-nos em nosso movimento exploratório e recuamos um pouco, até atingir aquele vazio que pode fazer face à plenitude e à diversidade”.

Aplicação do PDCA

O PDCA é um ciclo contínuo em que, assim como na Inteligência Sistêmica, é necessário abrir-se ao sistema e aos fenômenos apresentados para perceber o essencial. Com alguma adaptação, é possível utilizar o PDCA em todos os tipos de organizações e até mesmo em projetos pessoais. Ainda que você não tenha familiaridade com as técnicas de administração ou com a inteligência sistêmica, a simplicidade dos dois conteúdos facilita a utilização deles. Após estabelecer um propósito, é necessário olhar a realidade envolvida e traçar um planejamento para atingir a meta estabelecida. Feito o planejamento, é hora de entrar em ação e colocar o planejamento em prática, fazendo aquilo que é necessário. Num processo contínuo, o próximo passo é checar a eficiência do que foi feito e corrigir o que não estiver produzindo os resultados esperados.

Ao corrigir as ações, volta-se ao processo de planejar, fazer, verificar e agir em busca do mesmo objetivo pretendido ou de novos desafios. Certamente será um processo rico de autoconhecimento e conhecimento do sistema que vai gerar muitos aprendizados. O importante é começar do jeito que for possível, ter disciplina para dar sequência e paciência para errar e aprender. Comece com metas simples para ganhar experiência e ânimo ao longo da jornada. Com a prática, será possível compreender os contextos da vida e do sistema com mais facilidade.

Criar um PDCA agindo com uma postura inclusiva em relação às pessoas e situações, respeito às pessoas (e fatos) que vieram antes e compromisso para equilibrar as trocas nas relações será uma forma de minimizar as dificuldades e riscos de qualquer projeto, facilitando a tomada de decisões.

Na administração pública

Na administração pública não é diferente. Cada um pode se comprometer com a eficiência, contribuir em seu núcleo e dentro das suas possibilidades. Quando o gato do clássico Alice no País das Maravilhas pergunta para onde ela quer ir e Alice responde com um “tanto faz”, o gato logo emenda que “para quem não sabe onde quer ir, qualquer caminho serve”. A administração pública muitas vezes representa o papel da Alice, sem saber para onde vai ou mudando o destino a cada 4 anos.

A administração pública que não faz um planejamento, não estabelece objetivos que sejam específicos, mensuráveis, atingíveis, relevantes e temporais. Isso faz com que os resultados alcançados sejam aceitos como os “melhores possíveis”, mas a realidade é que não existe parâmetro para avaliar a eficiência.

Numa perspectiva sistêmica, em que a arrecadação vem do sacro ofício de todos que contribuem com a vida coletiva, é dever da administração pública cuidar dos recursos com respeitoso primor. O conhecimento e a tecnologia estão aí, à disposição para quem desejar!

 

A China e o coronavírus

Em 30 de dezembro de 2019, um oftalmologista da cidade de Wuhan (China) chamado Li Wenglian enviou mensagem para um grupo de colegas alertando que tinha atendido 7 (sete) pessoas com sintomas semelhantes aos causados pelo vírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave, conhecido pela sigla em inglês SARS e demonstrando sua preocupação com o risco de uma outra epidemia global semelhante a de 2003.

Postura das autoridades

Ao ter acesso a essa informação, o que as autoridades chinesas fizeram? Quatro dias depois do alerta emitido por Li, a polícia intimou o médico a comparecer ao Departamento de Segurança Pública onde o informaram de que ele poderia ser investigado por “espalhar boatos que perturbaram a ordem pública” e recebeu orientações para interromper o envio de “mensagens falsas”. O médico foi “convidado” a assinar um documento em que assumia a culpa por divulgar os “boatos” como forma de encerrar o assunto.

Na sequência dos fatos, o número de casos foi aumentando rapidamente, as autoridades locais reconheceram que a informação de Li estava correta e pediram desculpas públicas. Num roteiro dramático, Li Wenliang começou com tosse em 10 de janeiro, foi ao hospital para se consultar em 12 de janeiro, foi diagnosticado com o vírus em 30 de janeiro (um mês após emitir o alerta sobre o vírus) e faleceu em 06 ou 07 de fevereiro.

Há uma certa confusão sobre a morte do médico, pois inicialmente houve divulgação de que ele havia morrido no dia 06 às 21h30m, hora local. Alguns meios de comunicação publicaram a notícia que posteriormente foi desmentida. Porém, a morte foi novamente divulgada como se tivesse acontecido no início da sexta-feira, dia 07 de fevereiro, às 02h58m.

A desconfiança e seus desdobramentos

Epidemias não são algo novo no mundo, mas a postura das administrações públicas para gerir a crise é o diferencial para definir qual será o tamanho do impacto na população. A administração pública chinesa não investigou o alerta inicial emitido pelo médico Li Wenliang. Pelo contrário, reprimiu seu alerta, que poderia ter evitado muitas mortes, inclusive a do próprio médico.

Há desconfiança internacional de que os casos contabilizados pelo governo chinês estão muito abaixo da realidade. Especialistas internacionais indicam que apenas os casos mais graves estão sendo contados, os números se referem apenas às pessoas que manifestam os sintomas mais graves e que são hospitalizadas. É possível que a contagem oficial esteja desconsiderando as pessoas contaminadas que apresentaram sintomas leves ou que não apresentaram os sintomas. O governo centraliza a divulgação de informações e há relatos de pessoas que foram censuradas pelo governo por postarem casos de doenças na família. Há denúncias de que essas pessoas foram obrigadas pela polícia a apagarem as publicações.

Uma importante revista chinesa chamada Caijing denunciou que nem todos que morrem por coronavírus são incluídos na lista oficial. De acordo com a revista, os casos mais graves são mantidos nos hospitais, os demais são mandados para casa com ordem expressa de se manterem em quarentena. Esses casos de morte em casa não são contabilizados como decorrentes do coronavírus.

A desconfiança generalizada fez com que governos de vários países recomendassem que seus cidadãos saíssem da China ou  que não se deslocassem para lá. Em função do pânico instalado, muitos governos restringiram a entrada de chineses em seus países gerando inclusive, troca de acusações entre o governo chinês e outros governos.

As 5 principais falhas da administração pública chinesa

1 – NEGAR O FATO: As autoridades negaram a existência de um vírus com potencial letal em circulação e ignoraram o alerta do médico Li Wenliang, mais do que isso, houve opção por censurá-lo;

2 – SUBESTIMAR A GRAVIDADE DA SITUAÇÃO: Após admitir a existência da epidemia, as autoridades subestimaram a gravidade da situação e mantiveram alguns casos registrados em segredo;

3 – FALTA DE TRANSPARÊNCIA: O governo chinês prometeu transparência nas informações, mas em razão do elevado número de críticas suspendeu a liberdade de comunicação, redirecionou os esforços para o controle das mídias e da internet e reduziu as informações oficiais, dificultando o trabalho dos governos de outros países e de entidades internacionais de saúde;

4 – DEMORA EM AGIR: Ao demorar para admitir a epidemia e tomar as providências mais adequadas, a comunidade internacional não foi devidamente avisada fazendo com que a intensa circulação de pessoas que estiveram na China ou em contato com pessoas infectadas possibilitasse a propagação do vírus pelo mundo.

5 –  INEFICIÊNCIA NO COMBATE AO VÍRUS: Surgiram denúncias de que máscaras, trajes, óculos de segurança e outros materiais de proteção doados aos chineses não estavam chegando aos locais necessários. As denúncias eram de que médicos e profissionais de saúde precisavam improvisar máscaras e trajes de proteção e ficavam vulneráveis ao tratar os doentes enquanto políticos e altos servidores estatais utilizavam proteção de qualidade comprovada.

Mudança de rumo

Os números crescentes pressionaram o governo chinês a mudar a conduta. Vários administradores públicos diretamente envolvidos no controle local da questão foram demitidos pelo governo central. O método para contabilizar os casos de infecção mudou no dia 13 de fevereiro e isso fez com que o número de mortes passasse para 1300 e o de infectados saltasse para quase 60 mil pessoas. As autoridades chinesas tentam explicar que as mudanças são para promover mais agilidade no tratamento das pessoas infectadas, mas o efeito foi de insegurança internacional e medo de que o governo chinês desconheça a realidade da epidemia.

Um olhar estreito para um problema sistêmico

Diante da epidemia inicial, a administração pública chinesa lançou seu olhar somente para uma parte do sistema, a economia. Com o intuito de preservar a economia, o sistema todo foi colocado em risco. Sobrou crítica até mesmo para a Organização Mundial de Saúde – OMS por ter comemorado a estabilização do número de casos quando a realidade parece ser a não divulgação dos números. A OMS está sendo pressionada a cobrar um posicionamento claro e transparente por parte da China.

A importância econômica da China para o mundo demonstra que estamos inseridos num sistema global. Na tentativa de conter a epidemia, muitas cidades chinesas estão com suas indústrias e comércios paralisados, impactando a economia local e de todos os países que fazem negócios direta ou indiretamente com a China. Especialistas já estimam redução no PIB e na expectativa de crescimento da economia chinesa para 2020. Se confirmado, isso significará uma reação negativa da economia mundial.

Saúde, China!

A situação do momento envolve instabilidade nas bolsas de valores, importações e exportações comprometidas, redução na produção industrial, impacto no turismo, redução do consumo, etc. O mundo está em alerta pela China. Somos todos elos da mesma corrente. Quando uma parte adoece, a melhor alternativa é mobilizar as partes saudáveis para ajudar. Confiança e colaboração são estratégias eficientes de sobrevivência humana desde que o mundo é mundo – que as administrações públicas fiquem cientes disso. Que possamos aprender com os erros e acertos dessa jornada que ainda não terminou.

 

 

 

 

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