A China e o coronavírus

Em 30 de dezembro de 2019, um oftalmologista da cidade de Wuhan (China) chamado Li Wenglian enviou mensagem para um grupo de colegas alertando que tinha atendido 7 (sete) pessoas com sintomas semelhantes aos causados pelo vírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave, conhecido pela sigla em inglês SARS e demonstrando sua preocupação com o risco de uma outra epidemia global semelhante a de 2003.

Postura das autoridades

Ao ter acesso a essa informação, o que as autoridades chinesas fizeram? Quatro dias depois do alerta emitido por Li, a polícia intimou o médico a comparecer ao Departamento de Segurança Pública onde o informaram de que ele poderia ser investigado por “espalhar boatos que perturbaram a ordem pública” e recebeu orientações para interromper o envio de “mensagens falsas”. O médico foi “convidado” a assinar um documento em que assumia a culpa por divulgar os “boatos” como forma de encerrar o assunto.

Na sequência dos fatos, o número de casos foi aumentando rapidamente, as autoridades locais reconheceram que a informação de Li estava correta e pediram desculpas públicas. Num roteiro dramático, Li Wenliang começou com tosse em 10 de janeiro, foi ao hospital para se consultar em 12 de janeiro, foi diagnosticado com o vírus em 30 de janeiro (um mês após emitir o alerta sobre o vírus) e faleceu em 06 ou 07 de fevereiro.

Há uma certa confusão sobre a morte do médico, pois inicialmente houve divulgação de que ele havia morrido no dia 06 às 21h30m, hora local. Alguns meios de comunicação publicaram a notícia que posteriormente foi desmentida. Porém, a morte foi novamente divulgada como se tivesse acontecido no início da sexta-feira, dia 07 de fevereiro, às 02h58m.

A desconfiança e seus desdobramentos

Epidemias não são algo novo no mundo, mas a postura das administrações públicas para gerir a crise é o diferencial para definir qual será o tamanho do impacto na população. A administração pública chinesa não investigou o alerta inicial emitido pelo médico Li Wenliang. Pelo contrário, reprimiu seu alerta, que poderia ter evitado muitas mortes, inclusive a do próprio médico.

Há desconfiança internacional de que os casos contabilizados pelo governo chinês estão muito abaixo da realidade. Especialistas internacionais indicam que apenas os casos mais graves estão sendo contados, os números se referem apenas às pessoas que manifestam os sintomas mais graves e que são hospitalizadas. É possível que a contagem oficial esteja desconsiderando as pessoas contaminadas que apresentaram sintomas leves ou que não apresentaram os sintomas. O governo centraliza a divulgação de informações e há relatos de pessoas que foram censuradas pelo governo por postarem casos de doenças na família. Há denúncias de que essas pessoas foram obrigadas pela polícia a apagarem as publicações.

Uma importante revista chinesa chamada Caijing denunciou que nem todos que morrem por coronavírus são incluídos na lista oficial. De acordo com a revista, os casos mais graves são mantidos nos hospitais, os demais são mandados para casa com ordem expressa de se manterem em quarentena. Esses casos de morte em casa não são contabilizados como decorrentes do coronavírus.

A desconfiança generalizada fez com que governos de vários países recomendassem que seus cidadãos saíssem da China ou  que não se deslocassem para lá. Em função do pânico instalado, muitos governos restringiram a entrada de chineses em seus países gerando inclusive, troca de acusações entre o governo chinês e outros governos.

As 5 principais falhas da administração pública chinesa

1 – NEGAR O FATO: As autoridades negaram a existência de um vírus com potencial letal em circulação e ignoraram o alerta do médico Li Wenliang, mais do que isso, houve opção por censurá-lo;

2 – SUBESTIMAR A GRAVIDADE DA SITUAÇÃO: Após admitir a existência da epidemia, as autoridades subestimaram a gravidade da situação e mantiveram alguns casos registrados em segredo;

3 – FALTA DE TRANSPARÊNCIA: O governo chinês prometeu transparência nas informações, mas em razão do elevado número de críticas suspendeu a liberdade de comunicação, redirecionou os esforços para o controle das mídias e da internet e reduziu as informações oficiais, dificultando o trabalho dos governos de outros países e de entidades internacionais de saúde;

4 – DEMORA EM AGIR: Ao demorar para admitir a epidemia e tomar as providências mais adequadas, a comunidade internacional não foi devidamente avisada fazendo com que a intensa circulação de pessoas que estiveram na China ou em contato com pessoas infectadas possibilitasse a propagação do vírus pelo mundo.

5 –  INEFICIÊNCIA NO COMBATE AO VÍRUS: Surgiram denúncias de que máscaras, trajes, óculos de segurança e outros materiais de proteção doados aos chineses não estavam chegando aos locais necessários. As denúncias eram de que médicos e profissionais de saúde precisavam improvisar máscaras e trajes de proteção e ficavam vulneráveis ao tratar os doentes enquanto políticos e altos servidores estatais utilizavam proteção de qualidade comprovada.

Mudança de rumo

Os números crescentes pressionaram o governo chinês a mudar a conduta. Vários administradores públicos diretamente envolvidos no controle local da questão foram demitidos pelo governo central. O método para contabilizar os casos de infecção mudou no dia 13 de fevereiro e isso fez com que o número de mortes passasse para 1300 e o de infectados saltasse para quase 60 mil pessoas. As autoridades chinesas tentam explicar que as mudanças são para promover mais agilidade no tratamento das pessoas infectadas, mas o efeito foi de insegurança internacional e medo de que o governo chinês desconheça a realidade da epidemia.

Um olhar estreito para um problema sistêmico

Diante da epidemia inicial, a administração pública chinesa lançou seu olhar somente para uma parte do sistema, a economia. Com o intuito de preservar a economia, o sistema todo foi colocado em risco. Sobrou crítica até mesmo para a Organização Mundial de Saúde – OMS por ter comemorado a estabilização do número de casos quando a realidade parece ser a não divulgação dos números. A OMS está sendo pressionada a cobrar um posicionamento claro e transparente por parte da China.

A importância econômica da China para o mundo demonstra que estamos inseridos num sistema global. Na tentativa de conter a epidemia, muitas cidades chinesas estão com suas indústrias e comércios paralisados, impactando a economia local e de todos os países que fazem negócios direta ou indiretamente com a China. Especialistas já estimam redução no PIB e na expectativa de crescimento da economia chinesa para 2020. Se confirmado, isso significará uma reação negativa da economia mundial.

Saúde, China!

A situação do momento envolve instabilidade nas bolsas de valores, importações e exportações comprometidas, redução na produção industrial, impacto no turismo, redução do consumo, etc. O mundo está em alerta pela China. Somos todos elos da mesma corrente. Quando uma parte adoece, a melhor alternativa é mobilizar as partes saudáveis para ajudar. Confiança e colaboração são estratégias eficientes de sobrevivência humana desde que o mundo é mundo – que as administrações públicas fiquem cientes disso. Que possamos aprender com os erros e acertos dessa jornada que ainda não terminou.

 

 

 

 

Inteligência Sistêmica

Meus estudos sistêmicos focados em Bert Hellinger possuem raízes no Instituto de Desenvolvimento Sistêmico para a Vida – IDESV. Para quem se interessar, basta procurar o instituto nas redes sociais que vai encontrar um vasto e rico material gratuito disponível. Alerto que o que está disponível é apenas uma amostra do sistema IDESV. A experiência de ser aluno de Décio&Wilma supera qualquer descrição que eu possa fazer dessa vivência. Recomendo, para quem se interessar pelo assunto (e puder), dar-se esse presente.

O início

Quando comecei a aprender sobre a fenomenologia e as Constelações Familiares foi por uma necessidade pessoal. Após a vida serenar na esfera pessoal, vi que o trabalho de Hellinger possui uma amplitude que supera o âmbito pessoal. Tanto é assim que existem trabalhos estruturados na saúde, na educação, na justiça e nas organizações apresentando resultados cada vez mais relevantes.

Aos poucos, fui percebendo que a filosofia inerente ao trabalho de Hellinger poderia ser aplicada em todos os contextos dos relacionamentos. Daí, passei a treinar meu olhar para ver sistemicamente as situações que surgiam: da leitura de notícias às decisões relativas ao meu trabalho, passando pela conversa casual enquanto subia pelo elevador.

Bases (SAA + livro) 

Ao participar do IX Seminário Anual de Alunos – SAA do IDESV, ocorrido em outubro/2019 em Águas de Lindóia – SP, a minha percepção se ampliou ainda mais. Nesse evento vi pela primeira vez, de forma consistente, a aplicação do termo Inteligência Sistêmica. Esse foi o tema do seminário de 2019, inclusive com o lançamento do livro “Inteligência Sistêmica – como ela pode te ajudar a ter mais sucesso e felicidade”, disponível na Amazon.

A vivência no seminário e a leitura do livro foram determinantes para que eu conseguisse estabelecer melhores conexões com o conteúdo que eu já vinha acumulando, agora de uma forma direcionada para a administração pública. A Inteligência Sistêmica veio para dar coerência a um trabalho que eu já vinha fazendo, mas sem uma linha de direção consistente.

Já no prefácio do livro, o Professor Décio de Oliveira afirma que a adaptação do contexto das Constelações e seus princípios para outros âmbitos merece um novo nome, um nome que seja capaz de abranger um conjunto de visões e ferramentas criando um novo paradigma:

“Esse paradigma, na verdade, nos ensina, de uma forma bem simples, a desenvolvermos nossa inteligência social para os relacionamentos, aquilo que nós aqui passaremos a chamar de Inteligência Sistêmica, como um novo conceito para a apreensão desses princípios e aplicação destes dentro dos mais diversos e amplos contextos possíveis.”

Devagar, fui compreendendo que o uso da Inteligência Sistêmica era a chave para o outro olhar que eu pretendia lançar sobre a administração pública. Quando dediquei mais tempo às leituras que pudessem me dar um embasamento maior para formular ideias, tive a alegria de ler Coaching Sistêmico, de Jan Jacob Stam & Bibi Schreuder, publicado pela Editora Atman. Na página 9 desse livro encontrei mais um ótimo direcionamento:

“Com o termo inteligência sistêmica, referimo-nos à capacidade de aplicar os princípios sistêmicos em sua vida cotidiana, como no modo de falar com seus filhos ou vizinhos, no modo como apresenta uma queixa, etc.”

Simples e fácil?

A simplicidade é inegável, mas isso não quer dizer que seja fácil. Ao longo da vida fazemos parte de uns 20 sistemas e em cada um deles nos comportamos de certa maneira. Precisamos lembrar ainda que há um efeito recíproco em todos os nossos relacionamentos. Fazer ou deixar de fazer qualquer coisa atua sobre os outros e atua sobre nós de forma dinâmica e reflexiva. Marianne Franke, em Você é um de nós, p. 86, cita Mudelung, 1996, p. 55-56b):

“A abordagem sistêmica foca principalmente no contexto relacional um poder ou um fluido que atua entre as pessoas, quer isso seja ou não expresso pela comunicação verbal ou não verbal. (…) Cada pessoa está numa relação recíproca de modos múltiplos com seu meio ambiente. (…) Cada mudança em algum lugar dá origem a uma mudança no todo”.

Essa rede de influência mútua, apesar de facilmente observável, faz com que todos os movimentos internos e externos gerem efeitos com os quais temos que lidar. Isso exige de nós uma atenção plena no presente de modo que possamos alterar nossa postura para obter relacionamentos mais harmônicos. É simples, mas nossa tendência humana de sair do momento presente e de “cair” em estórias internas dificulta bastante a tarefa.

5 Posturas da Inteligência Sistêmica

Aponto 5 posturas saudáveis que podemos utilizar no cotidiano diante de questões para as quais queremos olhar amplamente:

1. Focar na solução possível;

2. Manter-se aberto ao que envolve a solução possível. Permitir-se não saber e acolher com sem julgamentos as perguntas que surgirem enquanto não obtiver as respostas necessárias;

3. Manter a calma. Apressar uma solução enfraquece o processo;

4. Estar plenamente no presente e observar o ambiente, os outros e principalmente, a si mesmo;

5. Fazer o que precisa, o que é necessário ser feito com coragem lembrando que o não-fazer consciente é uma ação.

 

 

 

 

 

 

Pobreza e falta de dinheiro

A pobreza e seus desdobramentos permeiam nossas vidas em vários aspectos, inclusive a vida em sociedade e aquilo que se relaciona à administração pública. Muitas são as políticas públicas implementadas com o objetivo de, no mínimo, combater a pobreza. Dentro dessa perspectiva, lancemos um olhar sistêmico para essa questão. Pode ser útil em termos individuais e coletivos.

A AGENDA 2030 DA ONU

A Organização das Nações Unidas – ONU iniciou em 2015 um projeto ambicioso classificado pela própria organização como “histórico e sem precedentes”. Os 153 países-membros assinaram um acordo para reunir governos e a população mundial em torno de decisões que promovam a melhoria da qualidade de vida das pessoas em “todos” os lugares até 2030. Por isso, o conjunto de medidas ficou conhecido como Agenda 2030. De acordo com a ONU:

“Essas decisões determinarão o curso global de ações para acabar com a pobreza, promover a prosperidade e o bem-estar para todos, proteger o meio ambiente e enfrentar as mudanças climáticas“.

As ações iniciadas em 2015 deram origem aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS que são 17 objetivos para transformar o mundo. O primeiro deles é a erradicação da pobreza, acabando com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares. Essas não são minhas palavras ou interpretações. Assim está descrito na página da ONU.

O ODS #1

Transcrevo abaixo, as ações relacionadas ao ODS 1 copiadas da página da organização, que pode ser acessada através deste link:

1.1 Até 2030, erradicar a pobreza extrema para todas as pessoas em todos os lugares, atualmente medida como pessoas vivendo com menos de US$ 1,90 por dia

1.2 Até 2030, reduzir pelo menos à metade a proporção de homens, mulheres e crianças, de todas as idades, que vivem na pobreza, em todas as suas dimensões, de acordo com as definições nacionais

1.3 Implementar, em nível nacional, medidas e sistemas de proteção social adequados, para todos, incluindo pisos, e até 2030 atingir a cobertura substancial dos pobres e vulneráveis

1.4 Até 2030, garantir que todos os homens e mulheres, particularmente os pobres e vulneráveis, tenham direitos iguais aos recursos econômicos, bem como o acesso a serviços básicos, propriedade e controle sobre a terra e outras formas de propriedade, herança, recursos naturais, novas tecnologias apropriadas e serviços financeiros, incluindo microfinanças

1.5 Até 2030, construir a resiliência dos pobres e daqueles em situação de vulnerabilidade, e reduzir a exposição e vulnerabilidade destes a eventos extremos relacionados com o clima e outros choques e desastres econômicos, sociais e ambientais

1.a Garantir uma mobilização significativa de recursos a partir de uma variedade de fontes, inclusive por meio do reforço da cooperação para o desenvolvimento, para proporcionar meios adequados e previsíveis para que os países em desenvolvimento, em particular os países menos desenvolvidos, implementem programas e políticas para acabar com a pobreza em todas as suas dimensões

1.b Criar marcos políticos sólidos em níveis nacional, regional e internacional, com base em estratégias de desenvolvimento a favor dos pobres e sensíveis a gênero, para apoiar investimentos acelerados nas ações de erradicação da pobreza

Quem é responsável pela solução?

O IBOPE em parceria com a ONU Brasil realizou uma pesquisa em 2017 e entrevistou 2002 pessoas em 143 municípios diferentes para analisar o nível de conhecimento do brasileiro sobre a agenda de trabalho que engloba a Agenda 2030. Sinto que os dados sejam de 2017, mas pelo que pesquisei não foram feitas pesquisas similares após esta data. Mas em relação ao que me chamou mais a atenção, a data em si não comprometerá a análise.

  • A pesquisa revelou que 1 em cada 10 brasileiros possui algum conhecimento sobre a Agenda 2030;

  • 51% dos entrevistados citaram o governo federal como o maior responsável pelo cumprimento da Agenda 2030;

  • Apenas 4% acreditam que a população em geral seria responsável pelas metas da ONU.

O que vejo de interessante nesses apontamentos da pesquisa? A população não se sente parte da solução. Faço ressalva para quem considera os números insignificantes em relação ao tamanho do Brasil. Caso a esfera de atuação internacional da ONU seja considerada, os números ficariam ainda menores diante do todo. Mas nem por isso podemos desprezar o resultado da pesquisa. Fico pensando como operacionalizar um planejamento em que 4% do todo se compromete… 4% trabalhando para que os objetivos sejam alcançados enquanto 96% observa e não se envolve diretamente. Será que existe alguma chance de funcionar?

Pobreza é falta de dinheiro?

Será que pobreza e falta de dinheiro são a mesma coisa? Para trazer um pouco da reflexão sistêmica, compartilho um trecho do livro Coaching Sistêmico, de Jan Jacob Stam e Bibi Schreuder, pág. 217-218, separando a percepção sobre o dinheiro e sobre a pobreza. Primeiro, o dinheiro:

“O dinheiro é um objeto com muitas facetas diferentes e ligado a muitos padrões sistêmicos diferentes. Minha impressão é que todo o modo com que as pessoas lidam com o dinheiro segue padrões enormemente estáveis. (…) O que sabemos de fato é que o dinheiro na sociedade flui para onde há vida animada. A força vital é resistente, ela se mantém com furor. Abre caminho através do terreno estéril, dos solos destruídos, procurando pastagens mais verdes e novas possibilidades. A força vital é extremamente criativa. Nas trilhas da força vital, geralmente, o dinheiro aparece”.

Agora, os mesmos autores refletem sistemicamente sobre a pobreza:

“A pobreza possui o poder, a pobreza decide. A pobreza pode determinar o que acontece na sociedade. Do mesmo modo que numa estrada, o que determina o fluxo do trânsito como um todo é o tráfego mais lento, e não o mais veloz”.

Haveria uma solução para a pobreza?

Será que existe uma solução para a pobreza em âmbito global? Será que existe uma solução que contemple a vida das pessoas em todos os lugares, conforme pretende a ONU? Será que o projeto da ONU obterá sucesso até 2030? Confesso que não me sinto capaz de dar uma resposta para um questionamento tão grande. Mas posso apontar, dentro da minha limitação e experiência na administração pública, 2 pontos essenciais na construção de políticas públicas capazes de fazer com que os objetivos propostos sejam atingidos:

  1. Foco no indivíduo. A transformação global começa, necessariamente, no indivíduo. O movimento precisa ser do micro para o macro, do indivíduo para o planeta. É perfeitamente possível começar com quem está disponível, de modo que haja um intercâmbio entre pessoas e grupos que estejam dispostos a compartilhar as soluções que encontraram em suas localidades e estejam abertos para ouvir como as mesmas questões são tratadas em outros sistemas;

  2. Articulação entre pessoas. Reunir forças em torno de projetos comuns com alcance amplo. Quais seriam os governos, organizações e cidadãos que estariam dispostos a contribuir (em parceria com a comunidade científica) com a criação de soluções e tecnologias mais eficientes para questões que afetam o sistema? O poder econômico, o emprego de tecnologia e os bons projetos não são suficientes para atingir resultados sem que haja bons relacionamentos humanos.

É necessário ir além. Desenvolver um espírito coletivo de prosperidade. Encerro deixando uma frase para reflexão. Mike Shinoda, norte-americano, produtor musical e vocalista da banda Linkin Park disse:

“Eu nunca fui pobre, apenas sem dinheiro. Ser pobre é um estado mental. Estar sem dinheiro é apenas uma situação temporária.”

Esclarecimento

Antes de encerrar, considero necessário fazer um esclarecimento: Vejo a pobreza como uma questão humanitária e minhas colocações são para demonstrar a necessidade de ampliarmos o olhar para temas tão grandiosos, que atingem a humanidade de forma geral.

Confio que ações que levem em consideração as leis sistêmicas e as ordens da ajuda apontadas por Bert Hellinger podem gerar avanços significativos. Ainda levará um tempo, mas temos a Administração Pública Sistêmica como uma ferramenta eficiente para enfrentar esse desafio.

“A falta de amor é a maior de todas as pobrezas.” (Madre Teresa de Calcutá)

 

Harry, Meghan e os 7 Princípios de Nolan

#Harryxit, #Meghanxit ou #Sussexit

O Príncipe Harry e sua esposa Meghan Markle anunciaram que se afastarão da realeza britânica. Trocando em muitos miúdos, eles querem viver com independência em relação à monarquia, mas a origem real de Harry não pode ser negada e pesa sobre a decisão do casal. Oficialmente, o Palácio de Buckingham emitiu comunicado de que apoia a decisão de Harry e Meghan, mas muitas questões ainda precisarão ser ajustadas dentro da tradicional Coroa Britânica.

Para além das fofocas, os jornais e sites de notícias do mundo inteiro tratam do assunto como um tema de interesse público. Sem me deter sobre questões pessoais ou desdobramentos relativos à decisão, esse texto aproveita a oportunidade e busca refletir sobre a postura esperada de pessoas públicas no Reino Unido.

Criação das Regras

Em 1994, por ordem da Rainha Elizabeth II e anúncio do Primeiro-Ministro John Major, foi criada uma Comissão sobre Normas de Conduta para a Vida Pública na Câmara dos Comuns. A Comissão surgiu com o propósito de garantir altos padrões de decência na vida pública e foi inicialmente presidida pelo Lord Nolan, ficando conhecida como Comissão Nolan. O documento publicado em 1995 ficou conhecido como Relatório Nolan (o nome original é Standards in Public Life) e criou um importante referencial dos padrões de comportamentos éticos de servidores públicos, incluindo políticos. Os princípios contidos no relatório foram adotados e implementados no Reino Unido e viraram objeto de estudo em diversos países do mundo.

O Relatório

O texto começa com um resumo seguido de uma lista de recomendações gerais numa estrutura relativamente simples dividida em quatro capítulos:

  1. Introdução ao tema;

  2. Membros do Parlamento;

  3. Ministros e servidores públicos;

  4. Órgãos públicos.

O relatório é longo e detalha as normas de conduta permitidas para cada área do serviço público. As regras são baseadas em sete princípios aplicados a todos os aspectos da vida pública, para uso de todos que de alguma forma prestem serviço público.

7 Princípios

Os princípios que formam um dos mais importantes documentos da ética pública moderna são:

  1. Interesse Público: “Os ocupantes de cargos públicos deverão tomar decisões baseadas unicamente no interesse público. Não deverão decidir com o objetivo de obter benefícios financeiros ou materiais para si, sua família ou seus amigos.”

  1. Integridade: “Os ocupantes de cargos públicos não deverão colocar-se em situação de obrigação financeira ou de outra ordem para com indivíduos ou organizações externas que possa influenciá-los no cumprimento de seus deveres oficiais.”

  1. Objetividade: “No desempenho das atividades públicas, inclusive nomeações, concessão de contratos ou recomendação de pessoas para recompensas e benefícios, os ocupantes de cargos públicos deverão decidir apenas com base no mérito.”

  1. Prestação de Contas: “Os ocupantes de cargos públicos são responsáveis perante o público por suas decisões e ações, e devem submeter-se a qualquer fiscalização apropriada ao seu cargo.”

  1. Transparência

“Os ocupantes de cargos públicos devem conferir as suas decisões e ações a maior transparência possível. Eles devem justificar e restringir o acesso à informação somente se o interesse maior do público assim o exigir.”

  1. Honestidade: “Os ocupantes de cargos públicos tem o dever de declarar quaisquer interesses particulares que tenham relação com seus deveres públicos e de tomar medidas para resolver quaisquer conflitos que possam surgir de forma a proteger o interesse público.”

  1. Liderança: “Os ocupantes de cargos públicos devem promover e apoiar estes princípios através da liderança e do exemplo.”

O Brasil também tem Princípios

A Constituição Federal de 1988 em seu artigo 37 presenteia os brasileiros com Princípios que a Administração Pública Direta e Indireta deve seguir. De forma interessante, a combinação das letras iniciais dos Princípios constitucionais forma a palavra LIMPE:

  1.  Legalidade: Os agentes públicos devem agir amparados pela Lei e não por sua vontade própria.

  2. Impessoalidade: Os agentes públicos devem atuar em nome do interesse público, tratando todos de forma igual, sem conceder privilégios especiais a pessoas específicas.

  3. Moralidade: Os agentes públicos devem agir para o bem comum e com base na ética.

  4. Publicidade: Os agentes públicos devem dar transparência aos atos da administração pública publicando os atos permitindo a fiscalização e o controle social.

  5. Eficiência: Os agentes públicos possuem o dever de fazer uma boa administração dos recursos públicos, entregando serviços de qualidade para a sociedade.

Ética não sai de moda

Harry e Meghan deixaram de ser membros da Realeza, mas se comprometeram a servir à Rainha de forma diferente, sendo assim, eles estarão sujeitos às normas de conduta estabelecidas no Relatório Nolan. Torço para que eles tenham uma vida mais leve.

Para quem gosta de acompanhar e copiar (pouco ou muito) a vida das celebridades essa é uma ótima oportunidade de seguir “a moda” adotada pelos famosos Harry&Meghan.

Bons exemplos de conduta são sempre inspiradores, mas bem que poderíamos resgatar os Princípios estabelecidos pela Constituição e adotá-los em nosso cotidiano. Se cada um se comprometer a melhorar 1% do próprio comportamento por dia, no fim de um ano teremos melhorado 365%. No caso de 2020, que é ano bissexto, será 366%. Estamos em ano de Eleições! O momento é bastante oportuno para darmos exemplos melhores para as futuras gerações. Fica a dica!

Avançar ou morrer

A administração pública é a estrutura institucional legítima para representar a sociedade e seu propósito é servir coletivamente dentro da realidade em que ela se encontra. O aparato tecnológico disponível atualmente está transformando os contextos sociais, políticos, econômicos e culturais da população mundial. A transformação desses contextos demonstra a necessidade urgente de transformação nas bases da administração pública. É necessário e urgente a melhora da oferta e da qualidade dos serviços públicos, investindo com eficiência em infraestrutura visando o cidadão como cliente.

 

 

A melhoria da administração pública é uma das condições para se atingir o propósito de servir à sociedade com qualidade, afinal é a sociedade que financia a máquina pública. De acordo com o Registro Narrativo GovTech 2018, pág. 2, citando a Estratégia Brasileira de Transformação Digital:

“Em termos econômicos, uma boa estratégia digital pode trazer 5,7% de aumento do PIB anual e economizar até 97% dos custos de atendimento e serviços públicos”.

Nesse texto, apresento uma oportunidade de reflexão sobre a necessidade de avanço tecnológico na administração pública. Nessa oportunidade, vou analisar um único aspecto que envolve a administração pública, o saneamento básico. A ideia do texto veio quando li uma reportagem da Letícia Picolotto, publicada no Uol. Você pode ler a matéria clicando aqui.

O que não temos

Os números dos NÃOS brasileiros em relação ao saneamento básico:

  • 48% da população não possui coleta de esgoto (Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento – SNIS 2017);

  • 35 milhões de brasileiros não tem acesso a água tratada (SNIS 2017);

  • 59% das escolas de ensino fundamental não possuem rede de esgoto (Censo 2017).

Os dados demonstram que o Brasil precisa avançar muito para conseguir oferecer um serviço de saneamento adequado. Em 2007 foi criada a Lei 11.445, que estabelece as diretrizes para o saneamento básico no país, um direito garantido pela Constituição Federal. Desde então, muitos esforços estão sendo empreendidos para a elaboração e implementação de um Plano Nacional de Saneamento Básico – Plansab e muitas dificuldades tem sido enfrentadas envolvendo questões políticas e interesses diversos.

Considero importante alertar que um assunto tão relevante para a população brasileira deve ser acompanhado de perto. Em 2020 o Senado deverá dar continuidade ao debate sobre o marco regulatório do saneamento. Esse debate vem ocorrendo com mais intensidade desde 2018 e a proposta atual abre caminho para a entrada de empresas privadas na prestação desse serviço. Esse aliás, é um dos pontos mais polêmicos para que os nossos representantes cheguem a um acordo. A proposta deverá ser votada em fevereiro.

O que precisamos ver

O saneamento básico inclui:

  • o abastecimento de água potável,

  • o tratamento do esgoto,

  • a limpeza urbana,

  • o manejo dos resíduos sólidos e

  • a drenagem e o manejo das águas das chuvas.

A realidade provocada pelo que nos falta está aí, exposta, para quem quiser olhar. Para encontrar caminho em meio às dificuldades precisamos olhar para outras possibilidades, vou apontar 5, todas elas baseadas em inovação e tecnologia:

  1. Sistemas diferenciados para áreas urbanas e rurais. A Empresa Brasileira de Pesquisa e Agropecuária – EMBRAPA desenvolveu uma fossa séptica biodigestora capaz de tratar o esgoto do vaso sanitário e produzir um efluente que pode ser utilizado como fertilizante. Veja aqui. Essas fossas possuem uma tecnologia que permite a descentralização do saneamento, popularizando o acesso. Outra vantagem de utilizar esse recurso é que os dejetos são isolados impedindo o contato com a água do subsolo.

  2. A Articulação do Semiárido – ASA é uma rede formada por mais de três mil organizações da sociedade civil e um de seus trabalhos é o Programa 1 Milhão de Cisternas – P1MC. Através da construção de cisternas feitas de placas de cimento ao lado das casas, as famílias beneficiadas passam a ter acesso a água potável armazenada das chuvas sem a necessidade de grandes deslocamentos.

  3. Descentralizar o tratamento do esgoto por região. Existem tecnologias disponíveis que possibilitam a substituição de longas redes de esgoto para tratamento em um único lugar por diversas redes mais curtas, com tratamento descentralizado.

  4. Incentivar a implantação de outras formas de tratamento de resíduos (em pequena, média e larga escala), além dos aterros sanitários. A compostagem é um método de decomposição biológica para resíduos orgânicos que possui baixo custo e pode gerar renda. A reciclagem é uma das formas de tratamento de resíduos mais vantajosas porque o reaproveitamento reduz o consumo de recursos naturais, diminui a geração de novos resíduos e gera renda.

  5. Implantação de um sistema de drenagem urbana sustentável já que a impermeabilização do solo prejudica a absorção da água pelo solo provocando diversos prejuízos. A tecnologia atual permite a utilização de sistemas corretivos e preventivos, tais como áreas de retenção de impurezas (biorretenção), reservatórios de retenção da água (piscinões) e utilização de pavimentos drenantes em locais de maior risco.

Claro que é complexo

É claro que a questão é complexa, mas é possível ir além do que temos feito. Avançar de forma organizada é possível e necessário! E a participação da população na construção das políticas públicas é essencial. Lembre-se, 2020 será um ano-chave para o saneamento brasileiro.

Mais um link para demonstrar meu ponto de vista: 5 tecnologias revolucionárias utilizadas no Brasil.

Burocracia digitalizada

Estamos na era digital! Fato inegável! Nossas rotinas pessoais e profissionais foram amplamente alteradas pela tecnologia disponível. Entretanto muitas pessoas (e organizações) não compreendem o significado e alcance dessa realidade. De fato, a transformação digital está associada à otimização dos processos e das informações, mas muitos acreditam que ela está associada ao uso abundante de equipamentos eletrônico.

Digitalizar para quê?

De acordo com o Registro Narrativo GovTech 2018, pág. 3, citando a Estratégia Brasileira de Transformação Digital:

“Nossa visão para um Brasil Digital parte do princípio que o governo deve servir ao usuário – ao cidadão, negócios e agências. Toda interação com o governo tem que acontecer de forma rápida e efetiva, pelos canais mais convenientes para quem os utiliza“.

Os computadores e seus programas artificialmente inteligentes formam o aparato necessário para permitir que o fluxo de informações gere processos mais eficientes, mas é necessário considerar que o processo ocorrerá através de pessoas e para pessoas. Toda a tecnologia só faz sentido se permitir a melhora do desempenho na produção de produtos ou prestação de serviços feitos por pessoas para outras pessoas. A conectividade de dados precisa se transformar em informações relevantes gerando valor para quem? Para as pessoas. Ter e usar computadores (e toda sorte de equipamentos caros) nas tarefas diárias não assegura a conectividade.

O brasileiro é conectado?

Sim. Dados divulgados em outubro/2018 demonstram que nós (brasileiros) estamos em terceiro lugar em tempo de permanência na internet, com uma média de 9 horas e 14 minutos de conexão por dia. Nesse quesito, perdemos para a Tailândia (9 horas e 38 minutos) e para as Filipinas (9 horas e 24 minutos).

Seguindo uma tendência mundial, 49% dos brasileiros utilizam apenas o telefone celular para acessar a internet. A média mundial para acesso exclusivo pelo celular é de 39%. Foi a primeira vez que uma pesquisa apontou os celulares como o dispositivo mais acessado pelos brasileiros. Aproximadamente 47% dos brasileiros utilizam a combinação de celulares e computadores. Tudo está ao alcance dos cliques, ao alcance das mãos.

Então, é fácil?

Não. Olhando os números de forma isolada, podemos supor de forma errada que fica fácil digitalizar os processos e atendimentos na administração pública. Entretanto, é necessário considerar um outra estatística. Segundo o Registro GovTech (pág. 6) citado acima, 29% dos brasileiros são analfabetos funcionais.

Em 2017 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, através da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD Contínua estimou que 6,8% (11,3 milhões) de pessoas acima de 15 anos são analfabetas no Brasil. Na população acima de 25 anos, pouco mais de 5% não possuem instrução e 33,1% não completaram o ensino fundamental.

Há necessidade de considerar o índice de analfabetos funcionais ou pessoas que sabem ler e escrever, mas são incapazes de interpretar ou interpretar o texto lido. Uma medição criada pela ONG Ação Educativa em parceria com o IBOPE aponta que cerca de 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. Existem ainda os analfabetos digitais, que são as pessoas com acesso à tecnologia e que fazem uso limitado dos dispositivos por desconhecimento.

Control C Control V na Burocracia 

Embora seja comum encontrar computadores em diversos ambientes, incluindo a administração pública, não significa que haja conectividade. É comum observarmos um Control C Control V da burocracia transferindo-a do papel para o computador. Por observação, aqui estão 5 reclamação muito ouvidas de servidores e cidadãos:

1. Ineficiência: softwares que exigem preenchimentos longos, sistema lento e necessidade de repetir procedimentos por falhas diversas causando transtornos que facilitam a corrupção.

2. Retrabalho: necessidade de repetir procedimentos por falhas de softwares, erros de preenchimento de qualquer das partes ou necessidade de alteração de alguma informação.

3. Dificuldade para obter informações: informações simples são passadas de maneira incompleta ou errada ou não estão disponíveis nos canais de comunicação, fazendo com que seja necessário buscar atendimento presencial.

4. Insatisfação: cidadãos insatisfeitos com os serviços prestados e servidores desmotivados com a rotina de trabalho.

5. Custo elevado: o custo administrativo é elevado causando prejuízos econômicos para toda a sociedade.

Novas exigências

Os avanços tecnológicos criam consumidores cada dia mais exigentes em busca de novidades. Os consumidores querem produtos e serviços personalizados e tudo ocorre cada vez mais rápido. A velocidade se tornou uma exigência, ninguém concorda em esperar por nada. Há uma discordância com o lento, uma intolerância a frustração, uma produção incessante de conteúdos que nem sempre são relevantes. A mesma tecnologia usada para facilitar a vida das pessoas gera um padrão de expectativa cada vez mais alto e difícil de ser superado. Percebo que estamos cada vez mais distraídos e pouco propensos a abrir mão do supérfluo. Pior, temos dificuldade para definir o que é essencial para nós.

5 Desafios (entre muitos)

1. Investir em educação para reduzir o índice de analfabetismo, analfabetismo funcional e analfabetismo digital.

2. Combater a burocracia analógica e digital, simplificando processos e investindo em plataformas de interoperabilidade.

3. Adquirir eficiência operacional para eliminar procedimentos repetitivos ou desnecessários, redesenhar processos administrativos e investir em treinamento de servidores para melhorar os atendimentos presenciais e digitais.

4. Garantir proteção e privacidade dos dados através de mecanismos de identificação digital que gerem segurança.

5. Utilizar métricas e indicadores para acompanhar e melhorar os processos.

Encruzilhada

Os administradores públicos brasileiros podem escolher o rumo a ser tomado: ou assumem a responsabilidade inerente aos seus cargos e implementam reformas administrativas que promovam eficiência na prestação de serviços públicos focados nos cidadãos ou seremos atropelados pelas novas necessidades sociais. Um país que conhece as facilidades de aplicativos de transporte, comidas e compras online não vai mais se contentar com governos de papel e carimbo. E já estamos atrasados.