Administração Pública Sistêmica – APS

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A Administração Pública Sistêmica – APS é um outro olhar para a administração pública estruturado à partir dos princípios filosófico-sistêmicos desenvolvidos por Bert Hellinger. Para falar de APS precisamos recuar alguns passos e começar por Bert Hellinger e suas Constelações Familiares.

Quem é Bert Hellinger?

Bert Hellinger nasceu em 1925 na Alemanha, estudou em colégio interno e com o início da Segunda Guerra Mundial foi recrutado pelo exército e enviado para a Bélgica como canhoneiro. Foi capturado e ficou preso por aproximadamente um ano até que conseguiu fugir e retornar à Alemanha. Depois disso, entrou para uma Ordem Missionária Católica e foi enviado para a África do Sul durante o regime de segregação conhecido como Apartheid. Na África do Sul, Bert Hellinger conviveu estreitamente com o povo zulu e ficou impressionado com a forma respeitosa com que os pais e as crianças eram tratados, e ainda com a maneira como os zulus decidiam por consenso e não por maioria, fato que reduzia significativamente os conflitos nos grupos, mesmo com a poligamia sendo permitida. Ao participar de uma dinâmica de grupo ecumênica promovida pela Igreja Anglicana, Bert Hellinger ouviu a pergunta que mudaria a sua vida:

“O que é mais importante para você, as pessoas ou os ideais? O que você sacrifica pelo quê: as pessoas pelos ideais ou os ideais pelas pessoas?”

(pág. 36 do livro Um lugar para os excluídos, de Bert Hellinger e Gabrielle ten Hövel).

Inicia-se assim um processo de profundas reflexões e transformações na vida e no trabalho de Bert Hellinger. Após um tempo ele retornou à Alemanha, deixou a Ordem Missionária e iniciou seu trabalho como terapeuta de grupos. Bert Hellinger não é o criador da Constelação Familiar, mas foi através dele que a Constelação ficou conhecida no mundo. Sua bagagem de estudos que inclui diversas áreas de conhecimento, dentre elas, filosofia, teologia, pedagogia e psicanálise fizeram com que ele desenvolvesse uma terapia familiar sistêmica própria.

O que é a constelação familiar?

A Constelação Familiar pode ser definida como uma abordagem filosófica, sistêmica e fenomenológica focada nos relacionamentos. A metodologia empregada pelo modelo de Bert Hellinger permite que o cliente tenha uma percepção de seu sistema através de uma representação externa. Essa representação pode ser feita através de atendimento em grupo, individual ou online. O atendimento consiste na apresentação de um tema por parte do (a) cliente. Através do tema, o (a) constelador (a) utiliza-se de representantes (no caso de atendimento em grupo) ou âncoras, que podem ser bonequinhos ou algum objeto que represente as pessoas do sistema do (a) cliente (no caso de atendimento individual ou online). O (a) constelador (a) configura o sistema e através dos movimentos que ocorrem é possível demonstrar as dinâmicas que limitam o desenvolvimento do (a) cliente e apontar uma solução possível. A explicação exata para como esse fenômeno acontece ainda não é completamente conhecida, mas por observação empírica, Bert Hellinger percebeu que muitos conflitos aparentemente incompreensíveis nos relacionamentos podiam ser compreendidos através de sua abordagem sistêmica. As palavras não são suficientes para esclarecer e muito frequentemente a vivência da constelação familiar é capaz demonstrar a fenomenologia de forma esclarecedora, simples e rápida.

Leis Naturais

A filosofia de Bert Hellinger está essencialmente baseada em três princípios conhecidos como Leis Naturais. São eles:

Pertencimento: Baseado na necessidade humana de pertencer. Determinado por quem tem vínculo com o sistema. O vínculo pode ser de:

  • Sangue: irmãos e meio-irmãos; pais e seus irmãos e meio-irmãos, avós e seus irmãos e meio-irmãos e assim sucessivamente na linha ascendente. Estes vínculos envolvem pessoas nascidas ou não (abortos espontâneos, abortos provocados, natimortos), vivas ou que já tenham falecido.

  • Destino: vínculos que envolvam parceiros (as) sexuais anteriores de relações (com amor, que tenha gerado gravidez independente do nascimento da criança e relações com violência); pessoas que geraram vantagem (ou deram algo) ao sistema (salvamento de uma vida, herança ou ajuda significativa, escravidão como exploração do trabalho e geração de riqueza, etc); pessoas que geraram desvantagem (ou retiraram algo) do sistema: assassinato ou morte provocada acidentalmente, prejuízo financeiro, etc).

Ordem: Baseada na necessidade humana de respeitar um ordenamento, uma hierarquia. No caso dos sistemas familiares, trata-se de uma hierarquia natural determinada pela ordem de nascimento no sistema. Quem nasceu primeiro é maior do que quem nasceu depois. Essa ordem não inclui o casal entre si, pois entre o casal não há hierarquia.

Equilíbrio: Baseada na necessidade humana de compensar as trocas. O mecanismo é relativamente simples, quando alguém recebe algo, sente a necessidade de dar algo em troca. Isso acontece em situações ditas positivas e negativas.

Hipótese antropológica

Uma hipótese para esse fenômeno pode ser construída através da antropologia:

– Um indivíduo sozinho não seria capaz de se manter vivo num ambiente tão hostil quanto o daquele tempo. Os indivíduos nasciam com uma necessidade natural de se manterem unidos (pertencimento) e um alerta inconsciente de que sair do grupo lhe custaria a vida.

– Não era suficiente se manter em grupo, era necessário que o grupo fosse coeso em torno de uma liderança. Os indivíduos precisavam aceitar uma liderança sem questionar, julgar ou estabelecer condições. No contexto primitivo, o indivíduo mais capaz de exercer essa liderança era o mais velho, pois estar vivo há mais tempo era a prova de sua competência diante dos demais (ordem).

– Para que o objetivo maior (SOBREVIVER) fosse alcançado, era necessário ainda que os indivíduos estabelecessem trocas equilibradas entre si (equilíbrio). Por exemplo, quem se empenhava mais numa caçada era recompensado com uma porção de comida maior do que os demais para repor o desgaste energético empreendido em benefício do grupo. E assim era estabelecido, inconscientemente, princípios sociais de sobrevivência.

Aplicação

Bert Hellinger observou que os relacionamentos seguem esses três princípios e um olhar baseado neles pode ser aplicado em qualquer lugar e/ou atividade onde existam pessoas, mesmo hoje em dia. Sendo assim, podemos ver a filosofia sistêmica de Bert Hellinger aplicada à educação, saúde, justiça e organizações.

APS

Dentro dessa perspectiva, a proposta consiste em um olhar baseado na abordagem sistêmico-fenomenológica de Bert Hellinger para a administração pública. É importante destacar que não há pretensão em substituir nenhuma técnica administrativa reconhecida, recomendada e/ou referenciada pelas escolas de pensamento científico. A legislação e fundamentação técnica sobre os procedimentos que definem O QUE FAZER são reconhecidos e respeitados. Há um espaço de trabalho complementar, cuja atuação é no COMO FAZER que podem promover desenvolvimento pessoal e sistêmico. Na Administração Pública algumas perguntas se fazem necessária, principalmente num contexto de avanço tecnológico contínuo e rápido, aliado ao crescente aumento da população mundial como um todo. O que a APS propõe? Olhar sistemicamente para a administração pública objetivando compreendê-la para além da burocracia pois, em sua essência, ela trata de relacionamentos.

(Administração ou Gestão) Pública Sistêmica?

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Administração ou gestão?

Quando fiz faculdade de administração, o termo gestão era pouco utilizado, mas quando usado, era sinônimo de administração. O tempo passou e em algum momento percebi o uso constante do termo gestão enquanto administração caía em desuso. Basta dar uma olhada nas prateleiras de livrarias para perceber que gestão está em alta. É como se, ao utilizar o termo administração, você denunciasse a idade ou estivesse desalinhado com as modernas técnicas da área. Confesso que não ligo muito para isso e continuo considerando os dois termos sinônimos até alguém me convencer de que não é assim.

Uma consulta a um dicionário virtual, no caso em questão o Michaelis Online, encontrei que administração vem do latim administratĭo e significa:

1 – Ato, processo ou resultado de administrar.

2 – Ato de governar, dirigir ou gerir; governo, direção, gerência.

Segundo o mesmo Michaelis Online, gestão vem do latim gestĭo e significa:

1 – Ato de gerir ou administrar.

2 – Período em que o político fica em seu mandato.

Vejo alguns autores divergindo em relação ao uso dos termos e vou colocar aqui um posicionamento pessoal, uma opinião sem nenhuma fundamentação além de minha experiência:

Percebo que é mais uma questão de marketing, preferência e posicionamento de mercado do que de linguagem. Explico melhor…

Marketing

O mercado é dinâmico e ávido por novidades na mesma proporção que o ser humano é criativo. Ao utilizar o termo gestão no lugar de administração (ou o contrário), encontra-se solo fértil para uma corrente defender que o termo x é moderno e capaz de trazer soluções que o termo y em sua desconexão com a modernidade não permite. Isso acontece em todas as áreas. A linguagem vai mudando de acordo com o tempo.

Preferência

Nossa língua portuguesa é muito rica e num país de proporções continentais como o nosso a expressão linguística ganha particularidades de acordo com cada região e a preferência dos falantes. E assim temos mandioca, aipim e macaxeira para designar a mesma coisa. O mesmo acontece com tangerina, bergamota e mexerica. 

Posicionamento de mercado

O mercado tem se tornado cada vez mais fluido e as áreas de atuação estão com as fronteiras cada vez mais diluídas. Sendo assim, ao utilizar o termo administração pode-se dar a impressão de que seria uma prerrogativa privativa do administrador (a). Utilizar um outro termo pode ter sido uma alternativa consciente, ainda que a tarefa em si seja a mesma. 

As referências na Constituição Federal

No caso da administração pública, o termo descrito na Constituição Federal de 1988 é administração. Objetivando enriquecer o conteúdo exposto, destaco o artigo 18 da Carta Magna:

Art. 18. A organização político-administrativa da República Federativa do Brasil compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos autônomos, nos termos desta Constituição.

Administração Pública Sistêmica – APS

Na minha modesta opinião, os dois termos continuam sinônimos. Entretanto, ao ser necessário dar uma identificação para a aplicação da filosofia de Bert Hellinger no trabalho ao qual me proponho, optei pelo termo administração. Considerei a utilização de Administração Pública Sistêmica – APS como uma forma de respeitar a construção da estrutura político-administrativa da Constituição Federal de 1988. Isso evidentemente, não exclui em nenhum momento a utilização do termo gestão. 

Ad minister: servir junto

Antes de finalizar, reforço que as pesquisas sobre os termos me levaram a uma página que descreve a origem das palavras e lá  está escrito exatamente assim (clique aqui se quiser ler também):

Parece estranho, mas “administrar” vem de “menos” em Latim, que se dizia MINUS. Desta palavra se fez um superlativo, MINOR, “menor”.
De MINOR se fez MINISTER, primeiramente “servo, criado, ajudante” em sentido amplo e depois “servo de Deus, sacerdote, ministro religioso”.

Um derivado muito usado é exatamente ministro. Outro é ministério.
O sentido de “alto cargo administrativo” vem de “servidor da maior figura política de um país”, seja rei ou presidente.
Para dar o sentido de “gerir uma atividade”, essa palavra se soma ao prefixo AD-, “junto”.

Logo, “administrar” dá a noção de “servir ou auxiliar junto a” (uma instituição ou organização, por exemplo).

Encerro lembrando que Bert Hellinger nos aponta o caminho para servir à vida e para esse propósito não é necessário ter diploma.