A história de um sistema contém muito mais do que os fatos em si. Essas narrativas são partes essenciais de um sistema, mostram as origens, os caminhos percorridos, as emoções experimentadas e toda gama de relacionamentos estabelecidos naqueles contextos. Essa dinâmica também permeia a formação de um povoado que origina uma cidade.

Eu nasci em Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Originalmente a região era ocupada por diferentes grupos indígenas. Em 1808 Dom João determinou a ocupação dos “sertões do Leste de Minas Gerais” em nome da Coroa Portuguesa. A ocupação se concretizou através de divisões militares que receberam ordens de combater os povos indígenas, expulsá-los das margens do rio e garantir a navegação comercial através do Rio Doce, protegendo os interesses da Reais. Esse é um contexto tipicamente brasileiro que ainda hoje fica “esquecido” por muitos, numa postura característica de exclusão. Aqui não é diferente, os grupos indígenas não são lembrados e não tem seus lugares respeitados na construção da história local.

Eu cresci ouvindo os pais de amigos (as) dizendo que precisávamos estudar e buscar trabalho fora da nossa cidade. O discurso era de que aqui não existia futuro. Na adolescência comecei a compreender o impacto de ver jovens e adultos deixarem a cidade apostando na emigração como alternativa de melhora financeira. A maioria dessas pessoas iam (e ainda vai) ilegalmente para os Estados Unidos provocando uma separação entre mães, pais, esposas, filhos e amigos que vão buscar a realização de um sonho, mas sacrificam os relacionamentos mais valiosos. Os impactos dessas experiências ultrapassam as famílias.

Tanto é verdade que há uma tristeza coletiva quando um desses sonhadores (as) morre no exterior e a família não tem condições de trazer o corpo. O caso mais recente é do Gilberto Santiago, 41 anos, que morreu de hipotermia enquanto trabalhava limpando a neve nas ruas de Newton, em Massachusetts. Nessas condições, a comunidade se mobiliza para que o corpo seja repatriado e a família possa fazer a despedida.

Muitos Valadarenses vão para o exterior exclusivamente para adquirirem um patrimônio e viverem uma vida confortável quando retornarem. Lá, eles convivem em comunidades brasileiras e guardam na alma a esperança do retorno. A vida passa a se resumir a trabalhar e juntar dinheiro para voltar. E quando voltam, muitos não se adaptam. Sem contar os que perdem as economias em negócios que não conseguem administrar por falta de conhecimento técnico necessário.

Essas histórias (e muitas outras) seguem vivas em nós que estamos aqui. Não há como contar a nossa história coletiva sem incluir tudo que nos antecedeu. A vida fica recortada se deixamos de lado pessoas ou acontecimentos. A solução está na realidade. Tudo que faz parte precisa ser incluído, ter o lugar reconhecido e o equilíbrio das relações restabelecido.

Como é aí na sua cidade? Se quiser compartilhar, será uma alegria ler um pouco sobre sua história.

 

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