Acompanho algumas páginas que tratam de administração pública e fui surpreendida com essa pergunta:

“Onde o servidor público se perde na sua trajetória profissional?”

Posso responder por mim: em 2004, ingressei no serviço público para “passar uma chuva” e voltar logo para a iniciativa privada. Já existia um plano mental perfeito! Eu usaria a remuneração recebida para investir na minha carreira e dar no pé. Em nenhum momento eu pensei no que eu daria ao serviço público.

E eis que a realidade deu as cartas mostrando que meu plano perfeito não funcionou. Naquele momento eu não avaliei o quanto as carreiras públicas e privadas são diferentes. Nesse contexto, cada ano afastada da iniciativa privada aumentava ainda mais a distância para a minha porta de retorno. Eu fui entristecendo por não conseguir aquilo que eu tanto queria e não aproveitava as oportunidades que a vida estava me entregando de bandeja. Assim, sem ser grata e sem me conectar com a vida, eu fui descendo um poço. Levantava sem alegria, ia trabalhar sem ânimo e não investia na carreira porque não via perspectiva. Entre reclamar e viver, eu escolhia a primeira opção.

Quando eu já não aguentava mais, fui buscar ajuda profissional e percebi que eu tinha entrado no serviço público para resolver um problema pessoal. Foi aí que me perdi! Logo na entrada. Em nenhum momento eu considerei que o mundo do trabalho se faz com trocas. Eu apenas queria ser servida e não me preocupava em servir. O ambiente público favorece essa confusão na medida em que, aparentemente, o que é público não é de ninguém. Essa forma de pensar é a receita para destruir o ambiente público, seja no lugar de cliente, servidor ou governante. Tinha tudo para dar errado e deu, até que eu coloquei na ordem. Primeiro eu sirvo e depois eu sou servida! Você pode não acreditar, mas isso virou a chave da minha vida!

Daí em diante, fui ampliando a minha visão, ainda que de pouco em pouco. Uma das grandes motivações de entrada no serviço público é a estabilidade. Depois de entrar, o que parecia só sossego se mostra engessado, não permite mobilidade e pode frustrar. Tenho colegas com nível superior que foram aprovados em vagas de nível médio e se sentem frustrados porque as funções estão aquém de suas capacidades. Muitos tentaram e não conseguiram passar em concursos de nível superior e se sentem fracassados. Acredito que muitos adoecimentos de servidores possuem conexão com essa dinâmica.

O sistema público tem um modo de operação e não quer muito ouvir sobre novidades. As transformações são custosas, ainda que sejam para trazer melhorias. Sem a pretensão de dar uma resposta única para uma pergunta tão complexa, na minha percepção o servidor se perde num sistema:

– Polarizado (tem sempre um nós x eles);

– Com um comportamento que exala desrespeito por aquilo que foi feito antes;

– Que equilibra mal as trocas entre os clientes do serviço público / servidores comuns/ servidores em função de comando.

Do jeito que está, o sistema não consegue fluir e todos perdemos.

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