Jacinda Ardern é a primeira-ministra da Nova Zelândia. Ela está em seu segundo mandato e tem se destacado mundialmente por uma postura alinhada com os interesses da sociedade neozelandesa, sem se desconectar dos assuntos internacionais. Um exemplo de olhar e postura sistêmica.

Já faz bastante tempo que acompanho o trabalho de vários governantes e Jacinda Ardern se destaca de forma positiva. Quando falo sobre ela, algumas pessoas se apressam em dizer que na Nova Zelândia tudo fica mais fácil. Sobre isso, eu digo 3 coisas:

  1. O exercício da cidadania não cai do céu, é um comportamento aprendido e exercitado.

  2. Se é feito em um lugar, pode ser aprendido e repetido em outro lugar.

  3. Nenhum dos apontamentos que farei diz respeito a questões econômicas. São todos sobre relacionamentos.

Aqui estão as posturas que destaco:

Deixou de frequentar a igreja. Quando a autoridade máxima de um país abre mão de frequentar a igreja para evitar conflitos entre suas funções públicas e seus dogmas religiosos, ela está demonstrando respeito pelo povo de seu país e pelos princípios de sua igreja. Afastada, ela fica livre para tomar as decisões de acordo com os interesses da sociedade e deixa a igreja livre de ter que explicar o comportamento dela como fiel. No mínimo, um problema a menos.

Levou a filhinha para uma reunião da ONU. Ela e o marido, Clarke Gayford, mostraram que estão unidos pelo bem-estar do casal e da filhinha. Os dois se organizaram para levar a criança (ainda em fase de amamentação) numa viagem longa e necessária ao trabalho de Jacinda demonstrando que a família está unida para ajudá-la a cumprir seu papel político. E ela mostrou que não vai deixar de lado o papel de mulher e de mãe. Vale lembrar que os sites de notícia divulgaram que Clarke pagou as passagens dele e da filhinha com recursos próprios, nada de usar o dinheiro público.

Foi capaz de se colocar no lugar de quem estava sofrendo. Na cerimônia em memória dos atingidos pelo ataque a tiros na mesquita, Jacinda foi sensível ao sofrimento das famílias e agiu com respeito. Compareceu utilizando um véu para cobrir os cabelos, iniciou seu discurso com a saudação árabe “Salaam Aleikum” que significa “a paz esteja com vocês” e afirmou que “eles somos nós” ao se referir à comunidade muçulmana. Com essa postura, ela aponta para a paz e não para o ódio extremista.

Agiu com firmeza e baseada em dados científicos. Na condução das medidas para combater o avanço da pandemia, aumentou ainda mais a sua popularidade na Nova Zelândia, mesmo tendo tomado medidas duras. Sem protestos, os neozelandeses seguiram as regras estabelecidas pelo governo, que por sua vez, monitorava os dados e divulgava de forma transparente os boletins diários. Em razão da queda na economia, Jacinda e seus ministros reduziram os próprios salários em 20% durante 6 meses.

Sempre existe risco em apontar boas práticas de governantes, uma vez que outras informações podem surgir e jogar por terra o trabalho e a imagem construída durante anos. Entretanto, considero que ainda que surja algo do gênero referente à Jacinda Ardern, não apagará o trabalho realizado, especialmente pelo engajamento do povo neozelandês. Ela busca a ação sistêmica, não busca construir um personagem perfeito. Por isso, despertou motivação e confiança na Nova Zelândia, virando um fenômeno nas redes sociais.

Como governante, Jacinda dá exemplo de cidadania. Quem acredita que essas coisas só acontecem em países considerados desenvolvidos, sugiro refletir se essa não é uma desculpa para não rever as próprias atitudes como cidadãos / cidadãs. Ser autorresponsável dá muito mais trabalho do que reclamar, entretanto, a autorresponsabilidade leva à “Nova Zelândias” e a reclamação leva ao emaranhamento social.

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