A realidade mudou e há quem diga que a vida que considerávamos “normal” não será retomada. Momentos de crise nos colocam diante de todas as questões para as quais não queríamos olhar com o devido respeito. No caso das administrações públicas, todas as nossas desatenções com a educação, saneamento, sistema de saúde, ciência e tecnologia, imigração, mercado de trabalho, etc, estão diante de nós. Tudo e todos que negligenciamos e excluímos, todas as desordens sociais que alimentamos e todos os desequilíbrios econômicos que fingimos não ver estão sentados nos sofás de nossas salas. As bolhas que criamos estouraram e passamos a ver as pessoas que exerciam funções essenciais e que até então, estavam invisíveis aos nossos olhos.

Li recentemente que o fechamento das fronteiras na Europa em razão da pandemia está comprometendo a safra de 2020 para abastecimento do continente e exportação. Para fazer a colheira anual, o continente precisa de 800 mil a um milhão de trabalhadores, sendo a maioria composta por estrangeiros que saíam de seus países e trabalhavam temporariamente em países europeus. Já estão comprometidas as colheitas na Espanha, que precisa de aproximadamente 25 mil trabalhadores. A Suíça, que tradicionalmente recebe eslovacos, romenos e poloneses conta apenas com uma fração mínima desses estrangeiros. A França declarou que possui um déficit de aproximadamente 200 mil trabalhadores. A Alemanha precisa de cerca de 80 mil trabalhadores estrangeiros e fechou um acordo para que 40 mil estrangeiros entrem no país até o fim de abril e os outros 40 mil, em maio.  A Itália está negociando o transporte de 15 mil trabalhadores estrangeiros para suas colheitas, mas isso representa uma parcela mínimas da necessidade real. O Reino Unido precisa de cerca de 80 mil trabalhadores estrangeiros para as colheitas.

No Brasil, as colheitas não contam com trabalhadores estrangeiros para serem realizadas e, por isso, não correm o risco de escassez de trabalhadores, desde que os níveis de contaminação pelo coronavírus estejam dentro do que o sistema de saúde possa absorver sem provocar caos. A demanda pela produção brasileira ainda está dentro das expectativas. Por exemplo, as exportações de laranja e grãos continuam dentro da normalidade do mercado. O sinal de alerta está aceso para as produções de algodão, açúcar e etanos, por uma tendência de redução de consumo desses produtos. Mas ainda será necessário acompanhar o cenário econômico para uma avaliação mais sensata.

Em diversos aspectos, a globalização fomentou a centralização de produções em países como a China, em nome da redução de custos. Ficamos com a sensação de que quase tudo que consumimos é produzido na China, total ou parcialmente. Pelo que percebo, as produções internas precisarão ser fortalecidas, algumas delas, em nome da segurança sanitária. Quer saber do que falo? A China vem trabalhando com afinco para ser a potência mundial em produtos farmacêuticos, cercando a cadeia produtiva dos ingredientes farmacêuticos e extratos naturais ao produto final, passando por maquinário, embalagens e toda tecnologia e ciência que envolve o setor. Estruturar um setor farmacêutico custa muito caro e a dinâmica do mercado tem desestimulado muitos países nessa área de investimento. A China não tem esse problema, está preparada para competir no setor que investir. E ela já sinalizou que tem um projeto para “ser líder em ciências da vida”. Quem duvida? O grande problema é que em caso de pandemia ou um evento com efeitos globais, o mercado consumidor estará dependente de poucos (ou único) fornecedores. Nesse aspecto, a existência de parques produtivos distribuídos pelo mundo é quase uma questão de segurança pública.

A realidade que está posta nos convida a reinventar a economia e a interação social através de adaptações e inovações dos relacionamentos. É necessário, dentre muitas ações:

– Fortalecer as produções internas e reorganizar as cadeias produtivas,

– Reestruturar a economia para que ela atenda às pessoas em suas novas relações de trabalho,

– Aprimorar as atividades para que sejam produtivas remotamente,

– Incluir digitalmente as pessoas, principalmente os idosos.

Acima de tudo e de todos, precisamos ser capazes de superar conflitos antigos e atuais, constantemente renovados por divergências insensatas para que a administração pública seja capaz de:

– Atuar de forma coordenada em todos os entes federados,

– Efetuar gastos com responsabilidade e transparência,

– Angariar a confiança da sociedade para que as orientações da administração pública sejam respeitadas pela sociedade.

 

 

 

 

 

 

 

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