Com certo atraso parei para ver o documentário sobre Bill Gates. Com atraso porque o filme foi lançado em setembro/2019 e até então, não tinha me animado a passar 3 horas vendo a vida de alguém como ele, apesar de reconhecer sua gigantesca importância e pioneirismo na revolução tecnológica que vivemos.

O documentário se chama Código Bill Gates e foi produzido por Davis Guggenhein |o mesmo de Uma Verdade Inconveniente, documentário de Al Gore sobre aquecimento global e Malala, sobre a mais jovem ganhadora do Nobel da Paz| que passou 2 anos acompanhando a vida de Bill e Melinda Gates. Na minha percepção, o filme aborda pouco algumas questões controversas e polêmicas na biografia de Gates, entretanto, esse é somente o meu ângulo nesse momento.

Reconheço que documentar a vida de alguém do tamanho de Bill Gates é um desafio incrível. Sem contar que, dentre todas as direções possíveis, o documentarista precisaria escolher uma. E ele escolhe olhar para a mente genial de Bill Gates buscando conexões entre fatos de sua vida e as soluções de todas as naturezas oferecidas por ele ao longo de sua carreira. Para um documentário que se propõe a decodificar o protagonista, acredito que a proposta ficou no meio do caminho por sua parcialidade, ainda que eu valorize os trechos mais pessoais entregues por alguém tão reservado quando Bill Gates. Então, vamos aos destaques sistêmicos! Advertência: há spoiller.

Pais e irmãs

Bill é o segundo de três filhos de Willian e Mary, um advogado e uma professora universitária bem sucedidos profissionalmente e com atuação marcante em negócios e filantropia. Junto com suas irmãs, Kristi e Libby, Bill frequentou as melhores escolas particulares de Seattle. Ele se definiu como um menino feliz e a irmã mais velha, Kristi, confirmou que ele vivia sorrindo. Os pais são descritos como amorosos e muito participativos na vida dos filhos. A mãe tinha muitas atividades e ainda assim, servia os filhos com alegria e dedicação. O pai era visto como um exemplo a ser seguido.

Mary foi uma mulher muito engajada nas atividades sociais e filantrópicas de Seattle. De acordo com Bill foi ela quem o fez ter interesse pela vida. Ela era muito amorosa e sabia como fazer as pessoas se sentirem bem de uma forma verdadeira. Mary se importava com as pessoas e ensinou isso aos filhos. Na adolescência, Bill deu muito trabalho aos pais e todos foram fazer terapia, mesmo sabendo que a questão principal dizia respeito ao relacionamento de Bill com a mãe. Após alguns meses de ajuda, Bill se rendeu à mãe.

Os pais seguiram direcionando Bill para a vida. Como ele tinha um perfil introvertido e com tendência ao isolamento social, a mãe criava oportunidades para Bill se socializar. Por exemplo, Bill era sempre convocado para ser o recepcionista nas festas e reuniões da associação que ele era membro. Quando fundou a Microsoft, a mãe ajudou Bill com a organização de sua vida nova em casa e no trabalho, sendo seu braço direito.

Quando Melinda surgiu na vida de Bill, as duas se deram bem imediatamente. Nessa fase, a mãe recuou e deu o espaço necessário para que o casal pudesse viver seu momento. Mary morreu de câncer de mama pouco depois do casamento de Bill com Melinda.

Melinda

Muito de Bill se revela através de Melinda. Enquanto ele é reservado, ela é aberta e sorridente. Ao vê-la no documentário, percebo a força de uma união equilibrada entre duas pessoas que se juntaram por objetivos de vida que ultrapassaram o âmbito familiar. Bill e Melinda se complementam em suas características e se potencializam.

É divertida a cena no começo do segundo episódio em que Melinda dá uma sonora gargalhada quando descobre o título do documentário. Na sequência, ela descreve a mente de Bill como um caos e completa dizendo que “não gostaria de viver naquele cérebro”. De acordo com ela, Bill é um multiprocessador que enquanto lê, processa simultaneamente as informações e resolve a própria vida emocional.

Melinda é o lado emocional e simpático da dupla. Uma mulher bonita e inteligente ao lado de Bill, um homem que já era famoso e rico quando a conheceu. O que transparece é que as dificuldades de um são complementadas pelas facilidades do outro fortalecendo a parceria. Bill respeita Melinda e para quem achava que ela era a mulher bonita que enfeitava a vida do homem poderoso, errou feio. Eles são sócios e parceiros nos negócios e na vida.

O projeto dos Gates

Eles estão (e sempre estiveram) conectados com o mundo. Por exemplo, a reportagem do New York Times “Á água ainda é uma bebida mortal no terceiro mundo” lida por Bill e Melinda numa manhã transformou os rumos da fundação que eles fundaram. A empatia que eles sentiram em relação ao sofrimento de outras pessoas fez com que eles se movimentassem para buscar uma solução. Ao perceberem que podiam contribuir, empreenderam esforços e colocaram suas habilidades como CEO’s para definir estratégias, direcionar ações, liderar equipes e alocar recursos para ajudar a melhorar as condições sanitárias pelo mundo.

Bill é o tipo do sujeito que se dá ao trabalho de ler com atenção o orçamento de um estado e outros documentos de caráter internacional que mostram os números levantados sobre diversos temas. Melinda entende dos números, dos sistemas de informação e leva uma visão humana para os projetos. Muitos filantropos que se preocupam com questões ambientais focam seus esforços exclusivamente na água. Bill e Melinda perceberam que era necessário ter uma VISÃO SISTÊMICA e criaram o projeto WASH, que abrange água (WAter), saneamento (Sanitation) e higiene (Hygiene). O WASH da fundação de Bill e Melinda trabalha em duas frentes: vasos sanitários e redes de esgoto. Por haver uma ausência total de inovação nas duas áreas, eles procuraram ajuda para criar inovações para esses problemas.

Bill escreveu para várias universidades de prestígio pedindo ajuda para solucionar a questão do saneamento e ajudar a salvar vidas. A maioria não se deu ao trabalho nem de responder. Então, eles criaram uma competição para premiar quem apresentasse os melhores projetos tecnológicos para vasos sanitários. A proposta da fundação foi pagar inventores para criarem inovações que fossem economicamente viáveis para serem implantadas em larga escala. Todos foram desafiados a pensar um modo diferente de lidar com a mesma questão, já que o modelo de tratamento de água e esgoto utilizado nos países desenvolvidos não é viável em países com severas dificuldades econômicas. É necessário repensar os vasos sanitários e os sistemas de esgotos. Nesse desafio, os participantes não poderiam usar água corrente, eletricidade ou um sistema séptico para criar um protótipo. Todos se surpreenderam com as ideias criativas que surgiram.

Revolução sanitária

O foco mudou da dificuldade de resolver os problemas para a reinvenção do vaso sanitário. Eles começaram a se questionar quais eram os motivos pelos quais o saneamento não funciona em países pouco desenvolvidos. O que já se tentou fazer? O que nunca se ousou fazer? É possível que os dejetos sejam utilizados para geração de energia? É possível criar um vaso sanitário que funcione sem água externa e sem canos? Em 7 anos alguns protótipos de vasos sanitários tecnológicos foram criados, mas o custo de produção da unidade é muitíssimo alto. O desafio é encontrar parcerias para reduzir o custo de produção e o preço final para torná-lo acessível.

A conclusão óbvia que tiro do documentário é que Bill e Melinda são pessoas comuns, que tiveram sucesso em suas áreas de atuação e não se acomodaram com isso. Eles são ricos e na idade em que estão, poderiam viver a vida usufruindo dos recursos que adquiriram ao longo do tempo. Mas eles romperam suas bolhas e saíram de seus mundos para empreender esforços e oferecer suas habilidades e influência para transformar o mundo em que vivem. A proposta é provocar uma revolução sanitária. Eu não duvido que isso possa acontecer porque eles já mostraram que é possível.

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