Vem de longe as manchetes que mostram ocupantes de cargos públicos se comportando de acordo com o que lhes convém, sem levar em conta os interesses coletivos, a história das instituições que representam e os bons modos.

Fico em dúvida se a descompostura aumentou ou se a tecnologia tornou possível expor ainda mais o que sempre aconteceu. Talvez esse seja um ponto pouco relevante.

A relevância estaria em olhar para a postura daqueles que ocupam os cargos públicos.

O que é um cargo?

Cargo é um LUGAR, é uma vaga ocupada por ALGUÉM em uma instituição.

A pessoa e o cargo

Você já ouviu dizer que alguém está à frente dos negócios? A frase é simples, mas demonstra que a pessoa vem antes do cargo. A pessoa traz o cargo, isso significa que existe uma ordem aí. Primeiro vem a pessoa e depois o cargo. Quando essa ordem é invertida, vemos o abuso do poder e a utilização do cargo em benefício próprio.

Vir à frente do cargo não significa que a pessoa é mais importante do que o cargo e sim, que a pessoa representa e personifica uma instituição. Isso faz com que a responsabilidade da pessoa seja multiplicada inúmeras vezes, pois o seu comportamento refletirá diretamente na imagem da instituição.

Você sabe com quem está falando?

A expressão “dar uma carteirada” significa que alguém toma para si privilégios que não possui baseando-se no fato de ocupar um cargo: tratamento diferenciado, passar na frente de quem espera, fumar onde é proibido, não pagar ingressos em determinados locais, não ser parado em blitz, etc. Em geral, quem dá carteirada solta a pérola: “Você sabe com quem está falando?”

E nessa linha de que alguns não podem ser contrariados porque ocupam cargos importantes, já li que um juiz perdeu um voo e ordenou a prisão do funcionário da companhia aérea. Também já li que um outro juiz mandou prender um agente de trânsito que o parou numa blitz. Já vi um deputado dando chilique pela demora no atendimento em um hotel, uma vereadora brigando com a secretária pelo atraso do médico e uma secretária de educação furando fila porque não “podia” esperar.

A liturgia do cargo

Liturgia do cargo é um nome difícil que significa comportamento adequado ao cargo. É a postura que o ocupante do cargo precisa ter em razão de representar uma instituição.

Representar uma instituição exige respeito pelo que veio antes. Há uma história construída por outros e que precisa ser honrada.

É perceptível que a liturgia do cargo está em falta atualmente. Sobram falas e comportamentos grosseiros por parte de pessoas públicas que perderam a compostura e não se comportam de acordo com o “tamanho” e a sobriedade das instituições que representam.

Gente comum

Ocupar um cargo dá a alguém responsabilidades, mas a pessoa continua comum. A pessoa precisa se alimentar, dormir, espirra, pega gripe, erra na digitação, tem um dia de mau humor… sei lá… é gente como você e eu. Qualquer coisa diferente disso é falta de conexão com a vida como ela é.