A pobreza e seus desdobramentos permeiam nossas vidas em vários aspectos, inclusive a vida em sociedade e aquilo que se relaciona à administração pública. Muitas são as políticas públicas implementadas com o objetivo de, no mínimo, combater a pobreza. Dentro dessa perspectiva, lancemos um olhar sistêmico para essa questão. Pode ser útil em termos individuais e coletivos.

A AGENDA 2030 DA ONU

A Organização das Nações Unidas – ONU iniciou em 2015 um projeto ambicioso classificado pela própria organização como “histórico e sem precedentes”. Os 153 países-membros assinaram um acordo para reunir governos e a população mundial em torno de decisões que promovam a melhoria da qualidade de vida das pessoas em “todos” os lugares até 2030. Por isso, o conjunto de medidas ficou conhecido como Agenda 2030. De acordo com a ONU:

“Essas decisões determinarão o curso global de ações para acabar com a pobreza, promover a prosperidade e o bem-estar para todos, proteger o meio ambiente e enfrentar as mudanças climáticas“.

As ações iniciadas em 2015 deram origem aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS que são 17 objetivos para transformar o mundo. O primeiro deles é a erradicação da pobreza, acabando com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares. Essas não são minhas palavras ou interpretações. Assim está descrito na página da ONU.

O ODS #1

Transcrevo abaixo, as ações relacionadas ao ODS 1 copiadas da página da organização, que pode ser acessada através deste link:

1.1 Até 2030, erradicar a pobreza extrema para todas as pessoas em todos os lugares, atualmente medida como pessoas vivendo com menos de US$ 1,90 por dia

1.2 Até 2030, reduzir pelo menos à metade a proporção de homens, mulheres e crianças, de todas as idades, que vivem na pobreza, em todas as suas dimensões, de acordo com as definições nacionais

1.3 Implementar, em nível nacional, medidas e sistemas de proteção social adequados, para todos, incluindo pisos, e até 2030 atingir a cobertura substancial dos pobres e vulneráveis

1.4 Até 2030, garantir que todos os homens e mulheres, particularmente os pobres e vulneráveis, tenham direitos iguais aos recursos econômicos, bem como o acesso a serviços básicos, propriedade e controle sobre a terra e outras formas de propriedade, herança, recursos naturais, novas tecnologias apropriadas e serviços financeiros, incluindo microfinanças

1.5 Até 2030, construir a resiliência dos pobres e daqueles em situação de vulnerabilidade, e reduzir a exposição e vulnerabilidade destes a eventos extremos relacionados com o clima e outros choques e desastres econômicos, sociais e ambientais

1.a Garantir uma mobilização significativa de recursos a partir de uma variedade de fontes, inclusive por meio do reforço da cooperação para o desenvolvimento, para proporcionar meios adequados e previsíveis para que os países em desenvolvimento, em particular os países menos desenvolvidos, implementem programas e políticas para acabar com a pobreza em todas as suas dimensões

1.b Criar marcos políticos sólidos em níveis nacional, regional e internacional, com base em estratégias de desenvolvimento a favor dos pobres e sensíveis a gênero, para apoiar investimentos acelerados nas ações de erradicação da pobreza

Quem é responsável pela solução?

O IBOPE em parceria com a ONU Brasil realizou uma pesquisa em 2017 e entrevistou 2002 pessoas em 143 municípios diferentes para analisar o nível de conhecimento do brasileiro sobre a agenda de trabalho que engloba a Agenda 2030. Sinto que os dados sejam de 2017, mas pelo que pesquisei não foram feitas pesquisas similares após esta data. Mas em relação ao que me chamou mais a atenção, a data em si não comprometerá a análise.

  • A pesquisa revelou que 1 em cada 10 brasileiros possui algum conhecimento sobre a Agenda 2030;

  • 51% dos entrevistados citaram o governo federal como o maior responsável pelo cumprimento da Agenda 2030;

  • Apenas 4% acreditam que a população em geral seria responsável pelas metas da ONU.

O que vejo de interessante nesses apontamentos da pesquisa? A população não se sente parte da solução. Faço ressalva para quem considera os números insignificantes em relação ao tamanho do Brasil. Caso a esfera de atuação internacional da ONU seja considerada, os números ficariam ainda menores diante do todo. Mas nem por isso podemos desprezar o resultado da pesquisa. Fico pensando como operacionalizar um planejamento em que 4% do todo se compromete… 4% trabalhando para que os objetivos sejam alcançados enquanto 96% observa e não se envolve diretamente. Será que existe alguma chance de funcionar?

Pobreza é falta de dinheiro?

Será que pobreza e falta de dinheiro são a mesma coisa? Para trazer um pouco da reflexão sistêmica, compartilho um trecho do livro Coaching Sistêmico, de Jan Jacob Stam e Bibi Schreuder, pág. 217-218, separando a percepção sobre o dinheiro e sobre a pobreza. Primeiro, o dinheiro:

“O dinheiro é um objeto com muitas facetas diferentes e ligado a muitos padrões sistêmicos diferentes. Minha impressão é que todo o modo com que as pessoas lidam com o dinheiro segue padrões enormemente estáveis. (…) O que sabemos de fato é que o dinheiro na sociedade flui para onde há vida animada. A força vital é resistente, ela se mantém com furor. Abre caminho através do terreno estéril, dos solos destruídos, procurando pastagens mais verdes e novas possibilidades. A força vital é extremamente criativa. Nas trilhas da força vital, geralmente, o dinheiro aparece”.

Agora, os mesmos autores refletem sistemicamente sobre a pobreza:

“A pobreza possui o poder, a pobreza decide. A pobreza pode determinar o que acontece na sociedade. Do mesmo modo que numa estrada, o que determina o fluxo do trânsito como um todo é o tráfego mais lento, e não o mais veloz”.

Haveria uma solução para a pobreza?

Será que existe uma solução para a pobreza em âmbito global? Será que existe uma solução que contemple a vida das pessoas em todos os lugares, conforme pretende a ONU? Será que o projeto da ONU obterá sucesso até 2030? Confesso que não me sinto capaz de dar uma resposta para um questionamento tão grande. Mas posso apontar, dentro da minha limitação e experiência na administração pública, 2 pontos essenciais na construção de políticas públicas capazes de fazer com que os objetivos propostos sejam atingidos:

  1. Foco no indivíduo. A transformação global começa, necessariamente, no indivíduo. O movimento precisa ser do micro para o macro, do indivíduo para o planeta. É perfeitamente possível começar com quem está disponível, de modo que haja um intercâmbio entre pessoas e grupos que estejam dispostos a compartilhar as soluções que encontraram em suas localidades e estejam abertos para ouvir como as mesmas questões são tratadas em outros sistemas;

  2. Articulação entre pessoas. Reunir forças em torno de projetos comuns com alcance amplo. Quais seriam os governos, organizações e cidadãos que estariam dispostos a contribuir (em parceria com a comunidade científica) com a criação de soluções e tecnologias mais eficientes para questões que afetam o sistema? O poder econômico, o emprego de tecnologia e os bons projetos não são suficientes para atingir resultados sem que haja bons relacionamentos humanos.

É necessário ir além. Desenvolver um espírito coletivo de prosperidade. Encerro deixando uma frase para reflexão. Mike Shinoda, norte-americano, produtor musical e vocalista da banda Linkin Park disse:

“Eu nunca fui pobre, apenas sem dinheiro. Ser pobre é um estado mental. Estar sem dinheiro é apenas uma situação temporária.”

Esclarecimento

Antes de encerrar, considero necessário fazer um esclarecimento: Vejo a pobreza como uma questão humanitária e minhas colocações são para demonstrar a necessidade de ampliarmos o olhar para temas tão grandiosos, que atingem a humanidade de forma geral.

Confio que ações que levem em consideração as leis sistêmicas e as ordens da ajuda apontadas por Bert Hellinger podem gerar avanços significativos. Ainda levará um tempo, mas temos a Administração Pública Sistêmica como uma ferramenta eficiente para enfrentar esse desafio.

“A falta de amor é a maior de todas as pobrezas.” (Madre Teresa de Calcutá)