A vida vem de longe, muitos empreenderam esforços imensos para sobreviverem em condições adversas para que cada geração que viesse tivesse oportunidades melhores. Se você está lendo esse texto é porque está vivo, pelo menos assim espero… rsrsrs… O encontro de um homem e uma mulher fez com que você tivesse a chance de viver nesse mundo. No livro Amor à segunda vista, na pág. 177, Bert Hellinger nos demonstra a postura adequada de um filho para com seus pais:

“Com reverência. O filho olha para os pais e olha através dos pais para um passado longínquo, de onde a vida vem originalmente. Quando toma a vida, toma a vida não apenas dos pais e sim de longe. Por isso, todos os pais são certos. Sob esse ângulo não existem pais melhores e piores. Existem apenas pais”.

 

Há 70 mil anos os sapiens se espalharam a partir da África. Inicialmente a comunicação entre os indivíduos era mais próxima do gestual, isso limitava a capacidade de trocas de informações e de liderança. Uma comunicação rústica dificultava o comando por parte do líder obrigando os indivíduos a se juntarem em grupos menores para que a sobrevivência fosse possível. Um líder não conseguiria comandar uma grupo grande utilizando a linguagem gestual porque era necessário proximidade física para que a informação fosse compreendida.

Com o aprimoramento da linguagem e o desenvolvimento da fala, a liderança pode ser ampliada. Um líder poderia dar um comando para um indivíduo que por sua vez, faria a transmissão aos outros. O surgimento da oralidade passou a possibilitar a existência de grupos maiores.

O advento da escrita ampliou ainda mais a capacidade de comunicação e de liderança. Através da escrita foi possível a formação dos primeiros reinos, a propagação do uso do dinheiro e a expansão do politeísmo no mundo. Com a evolução da escrita, os reinos se transformaram em grandes impérios e as religiões monoteístas ganharam espaço e importância. A escrita permitiu que os comandos fossem repassados a  um número maior de pessoas com nível menor de distorção. Passou a ser possível governar a longa distância com as ordens passadas através de mensageiros. Nesse período, estima-se que a população mundial era de aproximadamente 300 milhões de pessoas.

Por volta de 1450, o alemão Johannes Gutemberg inventou a prensa. Com base nas prensas de vinho ele criou um produto que revolucionou a comunicação humana e a capacidade de comandar. A escrita impressa continha a evolução da escrita por proporcionar a comunicação a longa distância acrescida do aumento significativo de pessoas acessadas através de um texto. Ao ser possível dar ordens para mais pessoas e a longa distância, a capacidade de governar se transformou rapidamente. A escrita impressa representou um marco na revolução científica fazendo com que a disponibilização do conhecimento democratizasse o aprendizado. Houve um desenvolvimento vertiginoso na produção da ciência trazendo expansão em diversas áreas, destacando-se medicina, educação, engenharia, economia e administração. O conhecimento produzido proporcionou melhoria na condição de vida da população aumentando cada vez mais o número de habitantes no planeta.

Em 1600 éramos 600 milhões e 200 anos depois passamos a ser 1 bilhão de habitantes. Após 27 anos, em 1827, já éramos 2 bilhões. Fico particularmente impressionada com essa parte do crescimento populacional, demoramos 200 anos para avançar 400 milhões de pessoas e em apenas 27 anos crescermos 1 bilhão de pessoas. A comunicação começou a se tornar digital na década de 1990 e a população seguiu em crescimento. As redes sociais passaram a ocupar o tempo e a atenção das pessoas, transformando a vida cotidiana radicalmente. A tecnologia tomou conta de tudo enquanto o aumento demográfico da população mundial seguia adiante. De bilhão em bilhão, em 2019 chegamos aos 7,7 bilhões de habitantes num contexto de vida completamente diferente do que já existiu. Para muitas questões, não temos parâmetros suficientes para projetarmos o futuro. As novas gerações, especialmente os nascidos após o ano 2000, estão habituados aos equipamentos eletrônicos como uma extensão de si mesmos. Quem nasceu antes navega com alguma (ou muita) dificuldade pelos novos hábitos de vida.

Como olhar a administração pública nessa perspectiva?

Se tivermos um olhar amplo em relação ao tempo poderemos admitir que a administração começou muito antes da administração científica de Frederick Taylor , Henri Fayol, Henry Ford e outros. Claro que é difícil retroagir com nossas observações e apontar evidências de utilização de técnicas de administração. Mesmo sem haver a consciência dessa prática, arrisco-me a apontar poucas evidências que podem tornar o nosso olhar um pouco diferente:

  • Os sapiens da África exerciam uma liderança capaz de manter a organização coletiva, mesmo que de forma inconsciente. Longe de ser científica, apenas fazendo uma brincadeira com fundo de verdade, é possível dizer que havia planejamento, análise de risco, divisão de tarefas, trabalho em equipe, busca por inovação e outros elementos que caracterizam a administração moderna. Escolher um lugar seguro para permanecer, ainda que temporariamente, ter percepção apurada para realizar deslocamentos por locais que oferecessem menos risco e cuidar para manter a integridade física dos indivíduos possuem uma leve semelhança com elementos da administração pública voltados para planejamento habitacional, mobilidade e segurança pública.

  • Os profetas guiavam as pessoas em nome de Deus, caracterizando uma longa fase teocrática da administração, através de pessoas, ordens ou religiões instituídas.

  • As ordens de cavaleiros e grupos similares, assim como os exércitos e organizações militares foram estruturadas sobre técnicas administrativas que foram descritas e melhor elaboradas pela administração científica posteriormente.

  • Ideias de Confúcio influenciaram a organização social e estatal chinesa por muitas dinastias.

  • No Egito, Claudio Ptolomeu projetou mapas e planejou a representação de superfície iniciando técnicas que mais tarde seriam aperfeiçoadas e utilizadas na geografia. Os estudos de Ptolomeu com informações territoriais e habitacionais assemelham-se ao cadastramento geoespacial da atualidade.

  • Todos os grandes reinos e impérios antigos possuem evidências de utilização das técnicas de administração pública, como controle populacional, regras de imigração, cobrança de tributário, etc.

Sem a intenção de tornar o texto um relato histórico, podemos perceber que a administração e a administração pública vieram de longe e atravessaram o tempo junto com a humanidade. Estamos em 2019 e se olharmos sistemicamente para o passado, podemos perceber que cada geração fez o que foi possível para sobreviver. Não está em nossas mãos o poder de emitir julgamentos sobre as atitudes de gerações anteriores. O passado é imutável. Jan Jacob Stam disse algo interessante no livro A Alma do Negócio, pág. 62:

“O reconhecimento da situação tal como ela é nos coloca em contato com a realidade e torna o novo possível, mas não podemos dizer o mesmo a respeito de sonhos, ilusões, imagens internas, reclamações e acusações. Essas coisas nos paralisam, nos tiram do essencial e nos impedem de agir”.

Olhar a linha do tempo pela ótica sistêmica coloca-nos diante da realidade e da obrigação de assumirmos nossas culpas individuais e coletivas. Enquanto desonramos os antepassados por aquilo que entendemos como errado ou mal feito nós deixamos de realizar aquilo que nos cabe. Mal ou bem, foram esses antepassados que nos trouxeram até aqui. Foi através deles que a vida chegou até nós. Foi esse o mundo possível que recebemos.

E nós, que mundo deixaremos?

Que sejamos capazes de reconhecer e honrar o que (e quem) nos antecedeu, do jeito que foi, com a humildade que fortalece e empurra para o futuro. E que eles, com sua força, nos ajudem a fazer um pouco diferente. Encerro com um pensamento denso de Bert Hellinger, contido na pág. 64 do livro Constelações Familiares:

“Quando a pessoa se submete ao todo, ela sente algo parecido com uma força que a sustenta. Mas é uma força que também traz sofrimento. O que faz o mundo girar não é a nossa felicidade, mas algo muito diferente. Para tanto fomos chamados à serviço”.

 

 

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