O período das chuvas está aí e com ele aumenta a dificuldade de caminhar pelas calçadas. Os problemas incluem pisos escorregadios (com ou sem chuva), buracos, desníveis, ar condicionado pingando água na calçada, canos que formam pequenas cacheiras com a água da chuva vinda dos telhados, obstáculos autorizados ou não, tais como bancas de revistas, barracas de ambulantes, lixeiras, entulhos, caçambas, material de construção, árvore, poste, produtos de lojistas pendurados nas marquises em frente aos comércios e muito mais. A lista é longa e afeta todos os pedestres, mais intensamente as pessoas portadoras de  necessidades especiais e com mobilidade reduzida. De acordo com o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Art. 3º, inciso IX, da Lei 13146/2015):

“pessoa com mobilidade reduzida: aquela que tenha, por qualquer motivo, dificuldade de movimentação, permanente ou temporária, gerando redução efetiva da mobilidade, da flexibilidade, da coordenação motora ou da percepção, incluindo idoso, gestante, lactante, pessoa com criança no colo e obeso”.

Com o passar do tempo vamos alargando nossas fronteiras individuais e coletivas. Mudamos nossa forma de agir diante de coisas que antes nem percebíamos. Quando eu era criança ninguém se preocupava se um local possuía acessibilidade, aliás, essa palavra nem era utilizada. Naquela época ninguém achava estranho um lugar ser inacessível. O olhar era para a limitação do indivíduo num movimento que considerava a exclusão “normal”. Era como se ninguém pudesse fazer nada, como se quem possuísse a limitação física tivesse que se conformar com o mundo. A sociedade foi ampliando sua forma de ver a vida, ficamos mais esclarecidos e mudamos a perspectiva em relação a muitos fatos. Em vez de nos conformarmos com a exclusão, passamos a buscar alternativas que tornassem os lugares acessíveis ao maior número de pessoas. A inclusão ganhou força na lista de comportamentos valorizados na sociedade. Um local sem acessibilidade passou a ser mal visto. E assim, o movimento que alterou o comportamento das pessoas provocou mudanças na legislação. Houve uma ampliação da consciência sistêmica ao percebermos que estávamos presos a padrões que poderiam ser alterados.

À parte a questão legal, gostaria de fazer uma intervenção sobre a nossa cidadania de cada dia. Se eu fizer uma busca simples na internet, vou encontrar estatísticas e toda a problemática envolvendo a desconformidade legal das calçadas brasileiras. Mas quero falar de cidadania, da nossa postura, daquilo que eu e você podemos contribuir:

 

# Visão além do alcance: Estar presente e olhar o cotidiano sem medo ajuda a enxergar situações que nos passava despercebida anteriormente;

 

# Eu faço parte: Reconhecer que fazemos parte do sistema contribui para expandir a percepção. Pode ser que estejamos contribuindo com o problema e não com a solução. Se percebemos nosso comportamento, podemos fazer algo para alterá-lo;

 

# Sem julgamentos: Abrir mão de críticas, opiniões e julgamentos para o comportamento alheio ajuda a fortalecer a confiança mútua;

 

# Empatia: Manter nossa sensibilidade em relação aos outros, sem tirar deles a dignidade;

 

# Ação possível: Agir dentro das nossas limitações e chances faz com que a postura cidadã seja leve;

 

As contribuições acima não dependem de educação formal para serem implementadas. Meus pais levaram uma vida dura durante muitos anos e não puderam frequentar a escola por um período muito longo. A vida real os chamou e eles responderam prontamente. Ainda assim, não consigo imaginar um deles instalando pisos escorregadios na calçada de casa por ser mais barato ou mais bonito. É impensável acreditar que a água do ar condicionado da casa deles pingaria na cabeça de alguém que passasse pela calçada. E eles não são os únicos, conheço muitas pessoas (com e sem diploma) que tomariam para si a responsabilidade de cuidar de suas calçadas, mesmo que fossem inquilinos e não estivessem “obrigados” a fazê-lo. Moro numa cidade de porte médio que ainda mantém hábitos interioranos. Meus vizinhos alternam a varrição da rua e das calçadas sem que haja uma planilha ou cobrança para a limpeza. É comum ver um dos vizinhos varrendo a porta dos outros, recolhendo o lixo em sacolas e colocando nas lixeiras. Em alguns dias, vários deles varrem no mesmo horário e a conversa rola solta enquanto acontece a limpeza. Há uma simpatia no ar, é perceptível! Ninguém precisou estudar legislação, ler um livro ou fazer um curso para se comportar assim.

O exercício da cidadania é público, pois ninguém é cidadão para si mesmo. A cidadania é um serviço ao outro. O cidadão age como protagonista e toma para si mais responsabilidade, à partir do seu próprio lugar na sociedade. A cidadania passa ainda, pelo equilíbrio entre o que se dá e o que se toma coletivamente. A calçada é o primeiro passo para fora da casa, fora dos nossos domínios internos. É através dela que saímos de casa e nos colocamos em contato com o exterior. Sendo assim, a calçada nos permite exercitar a postura cidadã.

 

 

 

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