A segunda Lei Natural de Bert Hellinger é a Ordem. É importante ressaltar que não existe ordem nas relações onde impera o equilíbrio. Por exemplo, nas relações entre casais não há ordem, os dois chegam juntos e são iguais. Respeitar a hierarquia é uma necessidade natural que possuímos. Obedecer uma ordem é um movimento presente na natureza e influencia o nosso bem-estar, do contrário, o caos nos provoca desgaste e prejudica nossa saúde mental. Pessoalmente, quando me sinto confusa costumo encontrar alívio fazendo uma limpeza da casa. Falando em bom português, fazer faxina me ajuda a ficar em ordem. Em algumas culturas a limpeza da casa é uma atividade considerada de grande importância. No Japão, por exemplo, a limpeza da casa é chamada de Oosouji e significa limpar a fundo. É costume dos japoneses limpar a casa antes da virada para receber o ano novo com a casa limpa. Alguns profissionais de saúde compreendem a limpeza e a organização da casa como uma função terapêutica. Nessa tarefa, podemos abrir mão daquilo que não é mais útil para o nosso contexto atual e colocar em ordem aquilo que vamos manter por mais tempo. Podemos fazer esse movimento para os objetos pessoais e para as emoções e sentimentos que nos habitam.

Ordem no sistema familiar

A hierarquia é determinada pela ordem de chegada numa família. Todas as pessoas do sistema possuem um lugar, tendo vivido muitos anos ou apenas alguns instantes. Isso inclui as gestações interrompidas, não importando os motivos pelos quais a vida tenha sido mais curta. A concepção determina quem chegou primeiro e quem chegou depois, dando a cada pessoa um lugar no sistema. Esse lugar é pré-determinado e não é passível de alteração em hipótese nenhuma. No livro Ordens do Sucesso Êxito na Vida Êxito na Profissão, na pág. 17, Bert Hellinger diz:

“Um lugar faz sentido se é um ao lado de muitos. Por si só ninguém tem um lugar”.

Respeitar a hierarquia familiar gera um conforto no grupo. Outro dia estava caminhando pelo centro da cidade e vi uma filha gritando com sua mãe por uma razão que não me lembro mais em detalhes. A dinâmica era que a moça queria algo e estava furiosa porque sua mãe havia negado. Pirraça, né? Ao ver a cena da moça aos gritos e a mãe em silêncio, meu corpo reagiu imediatamente com um desconforto sem fim.

É importante destacar que a ordem não pressupõe obediência. A evolução exige que cada geração faça algo mais porque o contexto muda de tempos em tempos. Se uma geração fizer exatamente como a geração anterior fez não haverá crescimento e ainda correremos o risco de retroceder. Ordem pressupõe respeito e reconhecimento pelos lugares de cada um no sistema.

Nas organizações

Nas organizações existe um ordenamento pela chegada no sistema através da contratação, mas existe também uma ordem por função, assim como afirma Bert Hellinger no livro Ordens do Amor:

“Nas organizações, além da ordem de origem, existe também uma hierarquia por função e desempenho”.

A afirmação acima significa que se uma pessoa tiver sido contratada para um cargo de liderança para comandar um grupo que já está na empresa há mais tempo, ela precisará respeitar a antiguidade dos trabalhadores por terem chegado antes e os trabalhadores precisarão respeitá-la por seu cargo. A postura adotada pelos membros deste sistema fará toda diferença no sucesso ou fracasso das ações em grupo. É importante lembrar que os fundadores sempre ocuparão o primeiro lugar. Eles tem a precedência em relação aos outros.

Imagem: Adobe Spark

 

Na administração pública

Nesse texto não pretendo me aprofundar na definição ou classificação de agentes públicos de acordo com o Direito Administrativo. O foco é demonstrar a entrada e saída de pessoas no sistema quando ocorre uma alteração de comando na administração pública. Novos dirigentes trazem consigo pessoas de sua confiança para ocuparem os cargos cuja ocupação dependem apenas de uma indicação. Sendo assim, em termos práticos vou considerar apenas:

  • Os agentes temporários, que entram e saem de acordo com os interesses e alternância do comando;

  • Os agentes permanentes, cuja relação funcional não está sujeita à alternância do comando.

Qual é o lugar do contribuinte no sistema?

Em muitas situações o contribuinte tem sido colocado do lado de fora do sistema, num lugar desrespeitoso e sem honra. Nesse lugar, ele é tratado como se a administração pública estivesse fazendo o favor de atendê-lo, quando a realidade é que a administração pública existe para servir ao coletivo. Se formos suficientemente honestos, admitiremos que o contribuinte é constantemente desrespeitado como usuário dos serviços públicos pelos quais paga. Polarizar a questão culpando o agente que está na ponta da cadeia de atendimento não resolve a situação. Sinceramente, não tenho a solução para males tão grandes e antigos. Eu sou apenas uma pequena (muiiito pequena) parte do sistema, mas estou convicta de que um outro olhar para a forma como estamos atuando (externa e internamente) pode nos permitir compreender que posturas diferentes geram resultados diferentes. Quem sabe fica mais leve?

Algumas desordens observadas

Na pág. 52 do livro Coaching Sistêmico, de Jan Jacob Stam & Bibi Schreuder consta que:

“Uma organização prospera quando cada pessoa, cada cargo, cada equipe, cada departamento e cada unidade de negócios possui um lugar confiável na estrutura da organização. Confiável no sentido de que não há dúvidas sobre a pergunta: qual é nosso lugar, nesse sistema?”

Na administração pública podemos observar algumas desordens, tais como:

  • Contribuintes colocados em segundo plano como se o agente público estivesse fazendo um favor ao cumprir suas tarefas;

  • Cargos criados em apenas para favorecer pessoas que pertencem ao mesmo grupo de quem está no comando;

  • Pessoas que chegam depois no sistema desqualificando pessoas que já estavam no sistema;

  • Desvalorização do trabalho desenvolvido por grupos anteriores.

Outra perspectiva

A transição política é saudável para a sociedade e é natural que as mudanças de comando demandem um tempo para que o sistema seja colocado em um novo movimento, entretanto se esse tempo for longo é necessário observar porque é bem possível que algo esteja fora dos trilhos. Reconhecer que temos um lugar e nos manter nele é de grande valia para o sistema. O único lugar de força é o nosso! É de lá que podemos agir para contribuir através de nosso trabalho. Para isso, necessitamos reconhecer nossos limites e perceber nossas potencialidades e nos colocarmos disponíveis e colaborativos.

Eu vejo assim, e você?

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