A primeira Lei Natural descoberta por Bert Hellinger é o Pertencimento. Nós, sapiens, temos a necessidade natural de pertencer e nos sentimos mal quando não nos é permitido fazer parte de um grupo do qual queremos participar. Empreendemos todos os esforços possíveis para que possamos ser incluídos em grupos que nos importam. Basta observar como nos identificamos e nos apresentamos:

  • Meu nome/sobrenome é …

  • Nasci em …

  • Sou formada em …

  • Trabalho na …

  • Frequento a igreja …

  • Torço para o time …

  • Sou sócia do clube …

  • Sou filiada ao partido …

  • Sou a favor de …

  • Sou contra …

 

 

Aqui dentro

A lista não termina aí, mas já consigo passar uma ideia do quanto somos seres de grupo, o quanto nossa identidade é construída sobre alicerces ligados ao pertencimento. Não há nada de errado nisso, realmente somos seres surgidos através da ação de outros. Se estamos aqui é porque nossos pais se uniram nos dando vida e no momento da concepção já somos um grupo (um sistema) composto por três pessoas. Caso existam outros filhos, o sistema familiar será maior de acordo com o número de irmãos. E ainda existem nossos ascendentes: avós, bisavós, etc. Esse é o nosso sistema de origem, nele há um modus operandi instalado e desde os primeiros momentos somos ensinados sobre o que é aceito e o que não é aceito. Ao longo da vida vamos aprendendo, pelos efeitos observados nas reações de aceitação e de recusa das pessoas em volta o que é permitido e o que não é. Quando nos comportamos de acordo com as regras temos uma sensação de conforto e de consciência leve. Quando nos comportamos de maneira que nosso sistema não aprova, ficamos desconfortáveis de consciência pesada. Partimos para o mundo com os aprendizados obtidos no nosso sistema de origem. Nossos relacionamentos do “lado de fora” serão muito semelhantes aos nossos relacionamentos “do lado de dentro”.

Lá fora

O mundo é muito maior do que o nosso sistema de origem e a forma de agir no grupo familiar limita nossas relações fora dele. As outras pessoas, nascidas em outros sistemas familiares também são ensinadas a se comportarem de acordo com as regras de seus grupos. No momento em que crescemos e passamos a frequentar outros sistemas, somos confrontados com permissões e proibições diferentes daquelas que aprendemos em casa. Somos desafiados a ajustar nossos comportamentos para que possamos viver em harmonia com os demais, mas a tendência é acharmos estranho a forma com que os outros se comportam.

Meu X Seu

Em geral, julgamos, criticamos e desvalorizamos os comportamentos que não estão de acordo com a forma que nos ensinaram. É aí que começam inúmeros problemas de relacionamentos. Consideramos certo apenas o nosso jeito de pensar – falar – fazer – amar – cuidar e sei lá mais o quê… Agimos como se tivéssemos o poder de definir quem tem o direito de pertencer e excluímos quem se comporta de forma diferente de nós.

 

A distorção por acreditar que aquilo que EU trago de casa é melhor do que aquilo que o OUTRO traz é uma desordem sistêmica. São posturas inconscientes e que podem ser percebidas e alteradas.

Família e organização

Família e organização são sistemas que guardam semelhanças e diferenças. Nos dois tipos de sistema o pertencimento é estabelecido através do vínculo. Em um sistema familiar o vínculo é permanente e pode ser:

  • De sangue: estabelecido através do parentesco entre irmãos (e meio-irmãos), pais (e seus irmãos e meio-irmãos), avós (e seus irmãos e meio-irmãos) e assim sucessivamente;

  • De destino: estabelecido com pessoas que tiveram qualquer contato marcante com o sistema e que tenham gerado alguma vantagem / desvantagem significativa. Por exemplo: Alguém que não é da família e deixou uma herança beneficiando o sistema, pertence. Alguém que salvou a vida de um membro da família, pertence. Alguém que causou um prejuízo financeiro provocando dificuldades à família, pertence. Alguém que atropelou (e matou) acidentalmente um membro da família, pertence.

Em uma organização, todas as pessoas que trabalharam nela são consideradas, algumas possuem um vínculo temporário e outras possuem um vínculo permanente. O vínculo é temporário para as pessoas que se ligaram a organização, executaram suas tarefas e depois de um determinado tempo deixaram de fazer parte. O vínculo é permanente para os fundadores, pessoas e elementos que contribuíram significativamente com o desenvolvimento da organização.

Uma organização existe pela união de várias partes. Vejamos o que diz Jan Jacob Stam, no livro A Alma do Negócio, pág. 16:

“Como um sistema, uma organização existe a partir de várias partes: das pessoas que lá trabalham, dos clientes, dos produtos e serviços, do objetivo e de muitos outros elementos”.

Na administração pública

Sem querer ser reducionista e já sendo, a sociedade é composta por contribuintes e, dentre esses contribuintes alguns se tornam agentes públicos. Os agentes públicos assumem a função de zelar pelo bem comum e pelos interesses da coletividade, mas continuam sendo contribuintes.

A administração pública é um grande sistema de relacionamento humano onde observamos a atuação do pertencimento em larga escala: o MEU partido e o SEU partido, a MINHA ideologia e a SUA ideologia, a MINHA interpretação da lei e a SUA interpretação da lei, etc. Observamos que essas posturas fazem com que uma parte do sistema sempre fique à margem do processo administrativo. É como se a gestão tivesse que ser exercida apenas com alguns membros do sistema porque os OUTROS não são confiáveis. Na pág. 113 do livro Histórias de Sucesso na Empresa e na Profissão, Bert Hellinger afirma algo para as famílias que também pode ser aplicado à administração pública:

“… há um todo que fica inteiro e permanece inteiro se todos aqueles que fazem parte dele forem valorizados como fazendo parte. Nas famílias está claro: assim que alguém for excluído, a família se sente incompleta. Cai na desordem e perde força”.

Sem pretensão de generalizar, descrevo situações observáveis na administração pública que contribuem para desordenar o sistema. Você não precisa concordar com a minha forma de ver, aliás, desconfie das minhas colocações. Mas sugiro que observe com um olhar neutro (sem medo, sem intenção, sem julgamento e abrindo mão do seu conhecimento prévio do assunto). É possível que você se surpreenda com suas percepções.

Algumas desordens observadas

  • Contribuintes excluídos do sistema da administração pública, como se não fizessem parte, como se fossem um incômodo;

  • Pessoas competentes excluídas por não pertencerem ao grupo de quem está no comando;

  • Pessoas que pertencem ao grupo que está no comando ocupando cargos de relevância na administração pública mesmo sem possuir a qualificação técnica necessária;

  • Políticas públicas direcionadas para localidades e grupos que apoiaram o grupo que está no comando.

Outra perspectiva

Na perspectiva sistêmica, a soma das partes dá origem a algo maior, com movimentos próprios. O sistema trabalha numa dinâmica que atua pelo todo e isso significa que não é permitida a inobservância dos princípios sistêmicos (pertencimento, ordem e equilíbrio) por nenhuma das parte. Quando isso ocorre o sistema entra em movimento para se restabelecer, ainda que isso cause transtornos individuais.

‘A consciência de grupo não conhece justiça para os descendentes, mas somente para os ascendentes. Obviamente, isso tem a ver com a ordem básica dos sistemas familiares. Ela atende à lei de que aquele que pertenceu uma vez ao sistema tem o mesmo direito de pertinência que todos os outros. Mas, quando alguém é condenado ou expulso, isso significa: “Você tem menos direito de pertencer ao sistema do que eu”. Essa é a injustiça expiada através do emaranhamento, sem que as pessoas afetadas saibam disso’.

A citação acima está contida no livro Constelações Familiares, pág. 14. Neste livro, Bert Hellinger concede uma entrevista à Gabriele ten Hövel cuja leitura eu recomendo para quem se interessar pelo tema. No caso da inobservância da Lei Natural do Pertencimento, o sistema trabalhará para trazer de volta a parte excluída. Muitas vezes, as exclusões são feitas de forma inconsciente, mas isso não minimiza os efeitos causados por ela. Uma dinâmica muito comum em organizações é a repetição do padrão de comportamento da pessoa/grupo excluído. Explico melhor, alguém se comporta de modo não permitido pelas regras de comportamento e é excluída. Posteriormente, outra pessoa assume o comportamento do excluído sem necessariamente terem se conhecido ou trabalhado juntos. O sistema traz de volta a exclusão para que todos possam vê-la e aprender algo. Quando excluímos alguém do sistema, perdemos as informações importantes que estão com ele e que ampliariam nossa capacidade de relacionamento.

A simplicidade na compreensão das Leis Naturais irrita muitas pessoas, chega a ser engraçado. A solução para as desordens de pertencimento é a inclusão. Reconhecer a pertinência sem crítica, julgamento, condições ou cara feia. Os outros estão vinculados em seus sistemas, fazendo aquilo que é possível naquele momento. Ao emitirmos uma opinião ou fazermos qualquer tipo de julgamento ainda que sem verbalizarmos, estamos sentados confortavelmente sobre nossas facilidades e apontando o dedo para as dificuldades alheias.

Reconhecer que o outro pertence e tem seu valor não é nada complicado. Entretanto, isso exige de nós a humildade de não nos colocarmos como mais valorosos do que os outros. Exige abrir mão de uma sensação de mais valia que nos infla o peito. Precisamos ter coragem de encontrar os pré-conceitos escondidos em nossas profundezas e abrir mão deles para nos relacionarmos com as pessoas.  Ao fazermos isso, veremos a vida valiosa que habita no outro, assim como em nós. E perceberemos que a vida de todos é digna e merece respeito. No fim das contas, cada um de nós é uma pequena parte do todo, ligados por uma força que tudo conhece.

Eu vejo assim, e você?

 

Imagem de capa: Adobe Spark

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