Outro dia fui tomar café com um amigo (que é arquiteto) e ele me contava sobre uma situação corriqueira que enfrenta quando precisa fazer projetos que incluam garagens para condomínios. Pelo relato, há uma “briga eterna” entre cliente e profissional. A briga é que o condomínio QUER porque quer fazer caber um número “infinito” de veículos num espaço limitado e o profissional PRECISA obedecer a legislação planejando vagas capazes de garantir que todos possam estacionar seus veículos com segurança. As vagas precisam existir na REALIDADE e não somente no papel (ou no computador).

 

Imagem: Adobe Spark

Recebi uma aula ao ser informada de que existe uma regulamentação na Norma Brasileira – NBR para a criação de vagas em estacionamentos. As normas são estabelecidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT.

Embora eu seja habilitada, nunca tinha pensado na “ciência” por trás daquelas marcações amarelas existentes em estacionamentos particulares e públicos. Pela explicação do meu amigo, o padrão para definir uma boa vaga é determinado por vários fatores que tomam como base o tamanho médio dos veículos, a largura da via de acesso, o espaço necessário para a área de manobra, etc. O assunto rendeu, mas vou refletir brevemente sobre a parte da conversa que considerei mais sistêmica.

O conflito entre o QUERER e o PRECISAR

Décio&Wilma do IDESV sempre dizem que “não se trata do que a gente quer e sim do que a gente precisa”. Enquanto meu amigo desabafava sobre suas questões, eu pensava nessa frase tão verdadeira e em quantas vezes nós queremos que as coisas sejam do nosso jeito sem considerar todo o sistema em que estamos inseridos. São comportamentos infantilizados e algumas vezes justificados com frases do tipo “eu sou o cliente e estou te pagando para fazer do meu jeito”.

O projeto é uma coisa e a REALIDADE é outra coisa

Do que adianta eu ter um projeto maravilhoso de garagem para 20 veículos se o espaço físico existente só comporta 18? Adianta projetar 20 vagas? Adianta pintar as faixas no chão demonstrando 20 vagas?

A necessidade (e importância) da ÁREA DE MANOBRA

 

Todos nós temos um lugar no nosso sistema, nossa vaga. E todo sistema tem sua área de manobra. É nesse lugar que podemos nos movimentar apesar de certos limites. Há uma certa liberdade, mas há um limite que se for desrespeitado gera arranhões e batidas nos outros “carros”. Á área de manobra pode ser bem utilizada para sair do sistema, com gratidão e reverência. A utilização correta da área de manobra nos leva ao portão de saída sistêmico.

 

 

Pelo visto, os relacionamentos também possuem seus regramentos e sua ABNT. De acordo com Joan Garriga*:

“Nossa liberdade é como a área de manobra de um estacionamento. Nessa área você decide seus movimentos, mas o limite é o estacionamento em si”.

*(Joan Garriga na pág. 58 de A chave para uma vida boa)