Uma palavra muito em voga atualmente é polarização. Ela pode ser definida como a ação de concentrar esforços em extremos opostos (de grupos, interesses, atividades, etc) que antes estiveram alinhados entre si. A ação empreendida para combater aquilo que se considera um comportamento oposto está baseada na lei sistêmica do Pertencimento. Pertencer é uma necessidade humana natural de querer fazer parte, de ser incluído. Quando alguém não possui os mesmos valores que eu, não pertence ao meu grupo, sendo assim, não me sinto comprometida com ele. Quando estou envolvida num padrão de polarização, possivelmente me sentirei impelida a combater os valores dessa pessoa para defender o “meu” grupo, os “meus” valores. Essa defesa do “meu” grupo ou o ataque ao grupo da outra pessoa frequentemente é feito de consciência leve. Do contrário, quando eu me abro aos valores de outros grupos, fico de consciência pesada e sinto medo de perder o meu pertencimento.

De acordo com Jan Jacob Stam & Bibi Schreuder¹, o movimento da polarização está relacionado às energias agressoras e de vitimização. Estamos falando de uma força agressora (e não de uma pessoa que agrediu) e de uma força de vitimização (e não de alguém que foi vítima). A agressividade e a tendência à vitimização fazem parte dos seres humanos, mas é importante destacar que ser agressor/agressora ou vítima é circunstancial, momentâneo. Quando falamos sobre agressores e vítimas corremos o risco de rotular definitivamente alguém como se fosse eternamente agressor ou vítima. Em contextos específicos, qualquer pessoa pode se tornar agressor ou vítima. Embora não seja uma regra, muitos agressores foram vítimas e muitas vítimas se tornam agressores.

A polarização é um padrão de concentração dessas forças em extremos opostos. Sob efeito desse padrão, as forças agressoras e vitimistas atuam num movimento contínuo e mútuo de atração e repulsão. A polarização começa com os pais, dois polos do nosso sistema de origem. Quando estamos na polaridade de um dos nossos pais (num movimento de lealdade) não estamos na polaridade do outro. Essa é uma perspectiva parcial, cega porque os dois polos nos compõem.

A polarização pode ser entre pessoas (ou partes de um sistema), interna (numa mesma pessoa) ou por ligações duplas.

– Entre pessoas ou partes de um sistema: Quando existem conflitos entre pessoas ou grupos que compõem o sistema (familiar, organizacional, etc). O efeito mais aparente é a briga constante em que um polo culpa o outro por aquilo que considera inadequado / incorreto / inaceitável;

– No interior de uma pessoa: Quando existem conflitos internos que provocam oscilações constantes. Por exemplo, uma pessoa que apresenta variações extremas de humor, que alterna sucesso e fracasso financeiro, que é capaz de conseguir bons empregos e logo o perde pode estar sob efeito de um padrão de polarização;

– Ligações duplas: Quando há uma ligação simultânea com as duas energias (uma energia que avança e outra que recua) provocando estagnação e sensação de que algo está emperrado.

Nessa perspectiva, podemos considerar que o padrão da polarização encontra combustível em pessoas (ou grupos) que se apresentam como salvadores de conflitos.

O analista transacional Stephen Karpman, em 1968, descreveu um modelo para as relações interpessoais baseado num triângulo que pode auxiliar na análise da polarização:

 

O triângulo de Karpman ou o triângulo do drama demonstra que as pessoas (ou grupos) se alternam constantemente entre três papéis, de vítima, perseguidor e salvador. Nessa roda de insucesso e interdependência nas relações as pessoas (ou grupos) se alternam nesses papéis. Exemplificando:

Quando alguém assume uma postura raivosa, agressiva e crítica ela tende a encontrar alguém que assuma a postura de vítima, que se sente ofendida e injustiçada, que sofre e se lamenta, reclama de forma ativa ou passiva e isso atrai para perto delas alguém que assume a postura salvadora, protetora, acolhedora, consoladora e heroica. Formado o triângulo, o perseguidor tem a quem culpar por todos os seus problemas, a vítima recebe a piedade tão desejada e se livra da responsabilidade por agir diante de seus próprios problemas e o salvador assume o papel ilusório do herói, responsabilizando-se pelas questões alheias enquanto sua própria vida fica em segundo plano.

De acordo com Luís Henrique de Oliveira²:

“Cada uma das pontas do triângulo possui potências e impotências – um tem sobrando aquilo que falta para o outro. Poderia, então, arriscar dizer que uma vida com mais responsabilidade e, consequentemente, com mais força potência e solução, emerge quando acesso um lugar de equilíbrio entre os papéis. Tenho chamado essa postura de Protagonista”.

A postura do protagonista leva cada vértice do triângulo a reconhecer suas limitações e trabalhar suas oportunidades. Assim, o perseguidor percebe que sua força ativa está direcionada para o alvo errado e utiliza essa energia de forma assertiva para produzir algo bom para si e para os outros. A vítima reconhece sua postura lamuriosa e trabalha para conquistar cada dia mais autonomia. Por sua vez, o salvador abre mão de achar que sem a sua ajuda as pessoas não conseguirão sair de seus problemas. Dessa forma, para de se portar como alguém maior do que os outros e trabalha a humildade. Assim, a vida segue mais leve para todos.

Adaptações: ¹Coaching Sistêmico (págs. 123-133) e ²Inteligência Sistêmica (pág. 148)
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