Cidadania na calçada

O período das chuvas está aí e com ele aumenta a dificuldade de caminhar pelas calçadas. Os problemas incluem pisos escorregadios (com ou sem chuva), buracos, desníveis, ar condicionado pingando água na calçada, canos que formam pequenas cacheiras com a água da chuva vinda dos telhados, obstáculos autorizados ou não, tais como bancas de revistas, barracas de ambulantes, lixeiras, entulhos, caçambas, material de construção, árvore, poste, produtos de lojistas pendurados nas marquises em frente aos comércios e muito mais. A lista é longa e afeta todos os pedestres, mais intensamente as pessoas portadoras de  necessidades especiais e com mobilidade reduzida. De acordo com o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Art. 3º, inciso IX, da Lei 13146/2015):

“pessoa com mobilidade reduzida: aquela que tenha, por qualquer motivo, dificuldade de movimentação, permanente ou temporária, gerando redução efetiva da mobilidade, da flexibilidade, da coordenação motora ou da percepção, incluindo idoso, gestante, lactante, pessoa com criança no colo e obeso”.

Com o passar do tempo vamos alargando nossas fronteiras individuais e coletivas. Mudamos nossa forma de agir diante de coisas que antes nem percebíamos. Quando eu era criança ninguém se preocupava se um local possuía acessibilidade, aliás, essa palavra nem era utilizada. Naquela época ninguém achava estranho um lugar ser inacessível. O olhar era para a limitação do indivíduo num movimento que considerava a exclusão “normal”. Era como se ninguém pudesse fazer nada, como se quem possuísse a limitação física tivesse que se conformar com o mundo. A sociedade foi ampliando sua forma de ver a vida, ficamos mais esclarecidos e mudamos a perspectiva em relação a muitos fatos. Em vez de nos conformarmos com a exclusão, passamos a buscar alternativas que tornassem os lugares acessíveis ao maior número de pessoas. A inclusão ganhou força na lista de comportamentos valorizados na sociedade. Um local sem acessibilidade passou a ser mal visto. E assim, o movimento que alterou o comportamento das pessoas provocou mudanças na legislação. Houve uma ampliação da consciência sistêmica ao percebermos que estávamos presos a padrões que poderiam ser alterados.

À parte a questão legal, gostaria de fazer uma intervenção sobre a nossa cidadania de cada dia. Se eu fizer uma busca simples na internet, vou encontrar estatísticas e toda a problemática envolvendo a desconformidade legal das calçadas brasileiras. Mas quero falar de cidadania, da nossa postura, daquilo que eu e você podemos contribuir:

 

# Visão além do alcance: Estar presente e olhar o cotidiano sem medo ajuda a enxergar situações que nos passava despercebida anteriormente;

 

# Eu faço parte: Reconhecer que fazemos parte do sistema contribui para expandir a percepção. Pode ser que estejamos contribuindo com o problema e não com a solução. Se percebemos nosso comportamento, podemos fazer algo para alterá-lo;

 

# Sem julgamentos: Abrir mão de críticas, opiniões e julgamentos para o comportamento alheio ajuda a fortalecer a confiança mútua;

 

# Empatia: Manter nossa sensibilidade em relação aos outros, sem tirar deles a dignidade;

 

# Ação possível: Agir dentro das nossas limitações e chances faz com que a postura cidadã seja leve;

 

As contribuições acima não dependem de educação formal para serem implementadas. Meus pais levaram uma vida dura durante muitos anos e não puderam frequentar a escola por um período muito longo. A vida real os chamou e eles responderam prontamente. Ainda assim, não consigo imaginar um deles instalando pisos escorregadios na calçada de casa por ser mais barato ou mais bonito. É impensável acreditar que a água do ar condicionado da casa deles pingaria na cabeça de alguém que passasse pela calçada. E eles não são os únicos, conheço muitas pessoas (com e sem diploma) que tomariam para si a responsabilidade de cuidar de suas calçadas, mesmo que fossem inquilinos e não estivessem “obrigados” a fazê-lo. Moro numa cidade de porte médio que ainda mantém hábitos interioranos. Meus vizinhos alternam a varrição da rua e das calçadas sem que haja uma planilha ou cobrança para a limpeza. É comum ver um dos vizinhos varrendo a porta dos outros, recolhendo o lixo em sacolas e colocando nas lixeiras. Em alguns dias, vários deles varrem no mesmo horário e a conversa rola solta enquanto acontece a limpeza. Há uma simpatia no ar, é perceptível! Ninguém precisou estudar legislação, ler um livro ou fazer um curso para se comportar assim.

O exercício da cidadania é público, pois ninguém é cidadão para si mesmo. A cidadania é um serviço ao outro. O cidadão age como protagonista e toma para si mais responsabilidade, à partir do seu próprio lugar na sociedade. A cidadania passa ainda, pelo equilíbrio entre o que se dá e o que se toma coletivamente. A calçada é o primeiro passo para fora da casa, fora dos nossos domínios internos. É através dela que saímos de casa e nos colocamos em contato com o exterior. Sendo assim, a calçada nos permite exercitar a postura cidadã.

 

 

 

Desordens sistêmicas – Parte 1

A primeira Lei Natural descoberta por Bert Hellinger é o Pertencimento. Nós, sapiens, temos a necessidade natural de pertencer e nos sentimos mal quando não nos é permitido fazer parte de um grupo do qual queremos participar. Empreendemos todos os esforços possíveis para que possamos ser incluídos em grupos que nos importam. Basta observar como nos identificamos e nos apresentamos:

  • Meu nome/sobrenome é …

  • Nasci em …

  • Sou formada em …

  • Trabalho na …

  • Frequento a igreja …

  • Torço para o time …

  • Sou sócia do clube …

  • Sou filiada ao partido …

  • Sou a favor de …

  • Sou contra …

 

 

Aqui dentro

A lista não termina aí, mas já consigo passar uma ideia do quanto somos seres de grupo, o quanto nossa identidade é construída sobre alicerces ligados ao pertencimento. Não há nada de errado nisso, realmente somos seres surgidos através da ação de outros. Se estamos aqui é porque nossos pais se uniram nos dando vida e no momento da concepção já somos um grupo (um sistema) composto por três pessoas. Caso existam outros filhos, o sistema familiar será maior de acordo com o número de irmãos. E ainda existem nossos ascendentes: avós, bisavós, etc. Esse é o nosso sistema de origem, nele há um modus operandi instalado e desde os primeiros momentos somos ensinados sobre o que é aceito e o que não é aceito. Ao longo da vida vamos aprendendo, pelos efeitos observados nas reações de aceitação e de recusa das pessoas em volta o que é permitido e o que não é. Quando nos comportamos de acordo com as regras temos uma sensação de conforto e de consciência leve. Quando nos comportamos de maneira que nosso sistema não aprova, ficamos desconfortáveis de consciência pesada. Partimos para o mundo com os aprendizados obtidos no nosso sistema de origem. Nossos relacionamentos do “lado de fora” serão muito semelhantes aos nossos relacionamentos “do lado de dentro”.

Lá fora

O mundo é muito maior do que o nosso sistema de origem e a forma de agir no grupo familiar limita nossas relações fora dele. As outras pessoas, nascidas em outros sistemas familiares também são ensinadas a se comportarem de acordo com as regras de seus grupos. No momento em que crescemos e passamos a frequentar outros sistemas, somos confrontados com permissões e proibições diferentes daquelas que aprendemos em casa. Somos desafiados a ajustar nossos comportamentos para que possamos viver em harmonia com os demais, mas a tendência é acharmos estranho a forma com que os outros se comportam.

Meu X Seu

Em geral, julgamos, criticamos e desvalorizamos os comportamentos que não estão de acordo com a forma que nos ensinaram. É aí que começam inúmeros problemas de relacionamentos. Consideramos certo apenas o nosso jeito de pensar – falar – fazer – amar – cuidar e sei lá mais o quê… Agimos como se tivéssemos o poder de definir quem tem o direito de pertencer e excluímos quem se comporta de forma diferente de nós.

 

A distorção por acreditar que aquilo que EU trago de casa é melhor do que aquilo que o OUTRO traz é uma desordem sistêmica. São posturas inconscientes e que podem ser percebidas e alteradas.

Família e organização

Família e organização são sistemas que guardam semelhanças e diferenças. Nos dois tipos de sistema o pertencimento é estabelecido através do vínculo. Em um sistema familiar o vínculo é permanente e pode ser:

  • De sangue: estabelecido através do parentesco entre irmãos (e meio-irmãos), pais (e seus irmãos e meio-irmãos), avós (e seus irmãos e meio-irmãos) e assim sucessivamente;

  • De destino: estabelecido com pessoas que tiveram qualquer contato marcante com o sistema e que tenham gerado alguma vantagem / desvantagem significativa. Por exemplo: Alguém que não é da família e deixou uma herança beneficiando o sistema, pertence. Alguém que salvou a vida de um membro da família, pertence. Alguém que causou um prejuízo financeiro provocando dificuldades à família, pertence. Alguém que atropelou (e matou) acidentalmente um membro da família, pertence.

Em uma organização, todas as pessoas que trabalharam nela são consideradas, algumas possuem um vínculo temporário e outras possuem um vínculo permanente. O vínculo é temporário para as pessoas que se ligaram a organização, executaram suas tarefas e depois de um determinado tempo deixaram de fazer parte. O vínculo é permanente para os fundadores, pessoas e elementos que contribuíram significativamente com o desenvolvimento da organização.

Uma organização existe pela união de várias partes. Vejamos o que diz Jan Jacob Stam, no livro A Alma do Negócio, pág. 16:

“Como um sistema, uma organização existe a partir de várias partes: das pessoas que lá trabalham, dos clientes, dos produtos e serviços, do objetivo e de muitos outros elementos”.

Na administração pública

Sem querer ser reducionista e já sendo, a sociedade é composta por contribuintes e, dentre esses contribuintes alguns se tornam agentes públicos. Os agentes públicos assumem a função de zelar pelo bem comum e pelos interesses da coletividade, mas continuam sendo contribuintes.

A administração pública é um grande sistema de relacionamento humano onde observamos a atuação do pertencimento em larga escala: o MEU partido e o SEU partido, a MINHA ideologia e a SUA ideologia, a MINHA interpretação da lei e a SUA interpretação da lei, etc. Observamos que essas posturas fazem com que uma parte do sistema sempre fique à margem do processo administrativo. É como se a gestão tivesse que ser exercida apenas com alguns membros do sistema porque os OUTROS não são confiáveis. Na pág. 113 do livro Histórias de Sucesso na Empresa e na Profissão, Bert Hellinger afirma algo para as famílias que também pode ser aplicado à administração pública:

“… há um todo que fica inteiro e permanece inteiro se todos aqueles que fazem parte dele forem valorizados como fazendo parte. Nas famílias está claro: assim que alguém for excluído, a família se sente incompleta. Cai na desordem e perde força”.

Sem pretensão de generalizar, descrevo situações observáveis na administração pública que contribuem para desordenar o sistema. Você não precisa concordar com a minha forma de ver, aliás, desconfie das minhas colocações. Mas sugiro que observe com um olhar neutro (sem medo, sem intenção, sem julgamento e abrindo mão do seu conhecimento prévio do assunto). É possível que você se surpreenda com suas percepções.

Algumas desordens observadas

  • Contribuintes excluídos do sistema da administração pública, como se não fizessem parte, como se fossem um incômodo;

  • Pessoas competentes excluídas por não pertencerem ao grupo de quem está no comando;

  • Pessoas que pertencem ao grupo que está no comando ocupando cargos de relevância na administração pública mesmo sem possuir a qualificação técnica necessária;

  • Políticas públicas direcionadas para localidades e grupos que apoiaram o grupo que está no comando.

Outra perspectiva

Na perspectiva sistêmica, a soma das partes dá origem a algo maior, com movimentos próprios. O sistema trabalha numa dinâmica que atua pelo todo e isso significa que não é permitida a inobservância dos princípios sistêmicos (pertencimento, ordem e equilíbrio) por nenhuma das parte. Quando isso ocorre o sistema entra em movimento para se restabelecer, ainda que isso cause transtornos individuais.

‘A consciência de grupo não conhece justiça para os descendentes, mas somente para os ascendentes. Obviamente, isso tem a ver com a ordem básica dos sistemas familiares. Ela atende à lei de que aquele que pertenceu uma vez ao sistema tem o mesmo direito de pertinência que todos os outros. Mas, quando alguém é condenado ou expulso, isso significa: “Você tem menos direito de pertencer ao sistema do que eu”. Essa é a injustiça expiada através do emaranhamento, sem que as pessoas afetadas saibam disso’.

A citação acima está contida no livro Constelações Familiares, pág. 14. Neste livro, Bert Hellinger concede uma entrevista à Gabriele ten Hövel cuja leitura eu recomendo para quem se interessar pelo tema. No caso da inobservância da Lei Natural do Pertencimento, o sistema trabalhará para trazer de volta a parte excluída. Muitas vezes, as exclusões são feitas de forma inconsciente, mas isso não minimiza os efeitos causados por ela. Uma dinâmica muito comum em organizações é a repetição do padrão de comportamento da pessoa/grupo excluído. Explico melhor, alguém se comporta de modo não permitido pelas regras de comportamento e é excluída. Posteriormente, outra pessoa assume o comportamento do excluído sem necessariamente terem se conhecido ou trabalhado juntos. O sistema traz de volta a exclusão para que todos possam vê-la e aprender algo. Quando excluímos alguém do sistema, perdemos as informações importantes que estão com ele e que ampliariam nossa capacidade de relacionamento.

A simplicidade na compreensão das Leis Naturais irrita muitas pessoas, chega a ser engraçado. A solução para as desordens de pertencimento é a inclusão. Reconhecer a pertinência sem crítica, julgamento, condições ou cara feia. Os outros estão vinculados em seus sistemas, fazendo aquilo que é possível naquele momento. Ao emitirmos uma opinião ou fazermos qualquer tipo de julgamento ainda que sem verbalizarmos, estamos sentados confortavelmente sobre nossas facilidades e apontando o dedo para as dificuldades alheias.

Reconhecer que o outro pertence e tem seu valor não é nada complicado. Entretanto, isso exige de nós a humildade de não nos colocarmos como mais valorosos do que os outros. Exige abrir mão de uma sensação de mais valia que nos infla o peito. Precisamos ter coragem de encontrar os pré-conceitos escondidos em nossas profundezas e abrir mão deles para nos relacionarmos com as pessoas.  Ao fazermos isso, veremos a vida valiosa que habita no outro, assim como em nós. E perceberemos que a vida de todos é digna e merece respeito. No fim das contas, cada um de nós é uma pequena parte do todo, ligados por uma força que tudo conhece.

Eu vejo assim, e você?

 

Imagem de capa: Adobe Spark

Desordens sistêmicas – Parte 2

A segunda Lei Natural de Bert Hellinger é a Ordem. É importante ressaltar que não existe ordem nas relações onde impera o equilíbrio. Por exemplo, nas relações entre casais não há ordem, os dois chegam juntos e são iguais. Respeitar a hierarquia é uma necessidade natural que possuímos. Obedecer uma ordem é um movimento presente na natureza e influencia o nosso bem-estar, do contrário, o caos nos provoca desgaste e prejudica nossa saúde mental. Pessoalmente, quando me sinto confusa costumo encontrar alívio fazendo uma limpeza da casa. Falando em bom português, fazer faxina me ajuda a ficar em ordem. Em algumas culturas a limpeza da casa é uma atividade considerada de grande importância. No Japão, por exemplo, a limpeza da casa é chamada de Oosouji e significa limpar a fundo. É costume dos japoneses limpar a casa antes da virada para receber o ano novo com a casa limpa. Alguns profissionais de saúde compreendem a limpeza e a organização da casa como uma função terapêutica. Nessa tarefa, podemos abrir mão daquilo que não é mais útil para o nosso contexto atual e colocar em ordem aquilo que vamos manter por mais tempo. Podemos fazer esse movimento para os objetos pessoais e para as emoções e sentimentos que nos habitam.

Ordem no sistema familiar

A hierarquia é determinada pela ordem de chegada numa família. Todas as pessoas do sistema possuem um lugar, tendo vivido muitos anos ou apenas alguns instantes. Isso inclui as gestações interrompidas, não importando os motivos pelos quais a vida tenha sido mais curta. A concepção determina quem chegou primeiro e quem chegou depois, dando a cada pessoa um lugar no sistema. Esse lugar é pré-determinado e não é passível de alteração em hipótese nenhuma. No livro Ordens do Sucesso Êxito na Vida Êxito na Profissão, na pág. 17, Bert Hellinger diz:

“Um lugar faz sentido se é um ao lado de muitos. Por si só ninguém tem um lugar”.

Respeitar a hierarquia familiar gera um conforto no grupo. Outro dia estava caminhando pelo centro da cidade e vi uma filha gritando com sua mãe por uma razão que não me lembro mais em detalhes. A dinâmica era que a moça queria algo e estava furiosa porque sua mãe havia negado. Pirraça, né? Ao ver a cena da moça aos gritos e a mãe em silêncio, meu corpo reagiu imediatamente com um desconforto sem fim.

É importante destacar que a ordem não pressupõe obediência. A evolução exige que cada geração faça algo mais porque o contexto muda de tempos em tempos. Se uma geração fizer exatamente como a geração anterior fez não haverá crescimento e ainda correremos o risco de retroceder. Ordem pressupõe respeito e reconhecimento pelos lugares de cada um no sistema.

Nas organizações

Nas organizações existe um ordenamento pela chegada no sistema através da contratação, mas existe também uma ordem por função, assim como afirma Bert Hellinger no livro Ordens do Amor:

“Nas organizações, além da ordem de origem, existe também uma hierarquia por função e desempenho”.

A afirmação acima significa que se uma pessoa tiver sido contratada para um cargo de liderança para comandar um grupo que já está na empresa há mais tempo, ela precisará respeitar a antiguidade dos trabalhadores por terem chegado antes e os trabalhadores precisarão respeitá-la por seu cargo. A postura adotada pelos membros deste sistema fará toda diferença no sucesso ou fracasso das ações em grupo. É importante lembrar que os fundadores sempre ocuparão o primeiro lugar. Eles tem a precedência em relação aos outros.

Imagem: Adobe Spark

 

Na administração pública

Nesse texto não pretendo me aprofundar na definição ou classificação de agentes públicos de acordo com o Direito Administrativo. O foco é demonstrar a entrada e saída de pessoas no sistema quando ocorre uma alteração de comando na administração pública. Novos dirigentes trazem consigo pessoas de sua confiança para ocuparem os cargos cuja ocupação dependem apenas de uma indicação. Sendo assim, em termos práticos vou considerar apenas:

  • Os agentes temporários, que entram e saem de acordo com os interesses e alternância do comando;

  • Os agentes permanentes, cuja relação funcional não está sujeita à alternância do comando.

Qual é o lugar do contribuinte no sistema?

Em muitas situações o contribuinte tem sido colocado do lado de fora do sistema, num lugar desrespeitoso e sem honra. Nesse lugar, ele é tratado como se a administração pública estivesse fazendo o favor de atendê-lo, quando a realidade é que a administração pública existe para servir ao coletivo. Se formos suficientemente honestos, admitiremos que o contribuinte é constantemente desrespeitado como usuário dos serviços públicos pelos quais paga. Polarizar a questão culpando o agente que está na ponta da cadeia de atendimento não resolve a situação. Sinceramente, não tenho a solução para males tão grandes e antigos. Eu sou apenas uma pequena (muiiito pequena) parte do sistema, mas estou convicta de que um outro olhar para a forma como estamos atuando (externa e internamente) pode nos permitir compreender que posturas diferentes geram resultados diferentes. Quem sabe fica mais leve?

Algumas desordens observadas

Na pág. 52 do livro Coaching Sistêmico, de Jan Jacob Stam & Bibi Schreuder consta que:

“Uma organização prospera quando cada pessoa, cada cargo, cada equipe, cada departamento e cada unidade de negócios possui um lugar confiável na estrutura da organização. Confiável no sentido de que não há dúvidas sobre a pergunta: qual é nosso lugar, nesse sistema?”

Na administração pública podemos observar algumas desordens, tais como:

  • Contribuintes colocados em segundo plano como se o agente público estivesse fazendo um favor ao cumprir suas tarefas;

  • Cargos criados em apenas para favorecer pessoas que pertencem ao mesmo grupo de quem está no comando;

  • Pessoas que chegam depois no sistema desqualificando pessoas que já estavam no sistema;

  • Desvalorização do trabalho desenvolvido por grupos anteriores.

Outra perspectiva

A transição política é saudável para a sociedade e é natural que as mudanças de comando demandem um tempo para que o sistema seja colocado em um novo movimento, entretanto se esse tempo for longo é necessário observar porque é bem possível que algo esteja fora dos trilhos. Reconhecer que temos um lugar e nos manter nele é de grande valia para o sistema. O único lugar de força é o nosso! É de lá que podemos agir para contribuir através de nosso trabalho. Para isso, necessitamos reconhecer nossos limites e perceber nossas potencialidades e nos colocarmos disponíveis e colaborativos.

Eu vejo assim, e você?

Desordens sistêmicas – Parte 3

A terceira Lei Natural que Bert Hellinger descobriu é o Equilíbrio. Não existe equilíbrio em relacionamentos onde impera a ordem. Por exemplo, não existe equilíbrio entre pais e filhos, pois aquilo que os pais dão aos filhos não pode ser compensado. Os pais dão vida aos filhos e os filhos não podem compensá-los de volta. A compensação, nesse caso, se dá com a sequência e geração de mais vida em direção ao futuro. O equilíbrio é uma Lei Natural baseada na necessidade humana de compensar as trocas. Para haver equilíbrio, cada pessoa precisa ser compensada de modo proporcional para o:

  • Mais: Pelo esforço / contribuição em favor do sistema;

  • Menos: Pelo dano / prejuízo causado ao sistema.

Na pág. 64 do livro A Fonte Não Precisa Perguntar Pelo Caminho, Bert explica o equilíbrio para aquilo que favorece:

“Essa necessidade possibilita o intercâmbio entre os membros de um sistema. Por estar vinculado a uma necessidade de pertencer, via de regra, se expressa assim: Se recebi algo de bom, tenho a necessidade de compensar. Mas porque me sinto pertencente e amo, dou um pouco mais do que recebi. Para o outro é  a mesma coisa, ele também dá um pouco mais e, assim, o intercâmbio cresce. “

 

Imagem: Adobe Spark

 

E desfavorece:

“Mas essa necessidade de compensação tem também um lado negativo: se alguém me faz algo de mau, tenho a necessidade também de fazer-lhe algo de mau. E porque me sinto com razão, faço, via de regra, algo um pouco pior do que ele me fez. Então, ele se sente também com razão, e volta a me fazer algo de mau e, assim, aumenta o intercâmbio no mau.”

 

É importante salientar que Bert aponta, no livro citado acima, que muitas guerras entre povos tem a ver com essa necessidade de vingança. Quando o relacionamento é importante e, existe amor, a compensação negativa pode se tornar positiva se quem for compensar, amenizar um pouco o mal que recebeu. Desta forma, o intercâmbio não será vingativo. Outra maneira de compensar um ato considerado mau, é fazer algo de positivo para “pagar” o dano causado. Esse “pagamento” precisa ser aceito pela pessoa ofendida para que o assunto seja encerrado e a vida siga em frente.

Na administração pública

Como servidora, as queixas que mais ouço possuem relação de que os contribuintes se sentem prejudicados por estarem sujeitos a uma carga tributária elevada e não perceberem o retorno do dinheiro entregue ao governo em forma de bem-estar coletivo. É comum que a associação imediata para essa queixa recaia sobre a corrupção e é claro que o desvio do dinheiro público impede que os recursos cheguem para a saúde, educação, saneamento e demais finalidades coletivas. Entretanto, o mau uso do dinheiro público por negligência, imprudência ou imperícia na administração também fere a lei do equilíbrio.

 

 

Esse tema surgiu numa conversa recente com um amigo que é psicólogo e comentamos o quanto somos passivos, pelo menos de forma geral. Nós (brasileiros) nos manifestamos apenas em circunstâncias excepcionais. No cotidiano há mais reclamação do que ações efetivas para exercer a cidadania diante do que discordamos na administração pública.

Nesse ponto que meu amigo me apresentou a um termo que não conhecia: “ignorância pluralística”. Aprendi que esse termo foi utilizado inicialmente pelo norte-americano Floyd Alport em 1924 para designar comportamentos em que um cidadão age de acordo com aquilo que os outros pensam e não conforme ele acha correto. O pensamento básico nessas situações é “se ninguém está fazendo nada, por que eu tenho que fazer”? Qualquer semelhança com a necessidade de pertencimento relatada em texto anterior não é mera coincidência. Encontrei uma matéria interessante sobre o assunto no site do Senado, caso se interesse, clique aqui. Ver nossos comportamentos como cidadãos por diferentes perspectivas pode nos ajudar no treinamento de posturas que sejam mais voltadas para a autorresponsabilidade.

Transcrevo abaixo, matéria de 2017 publicada no site do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação – IBPT que continua atual:

 

“Brasil é o País que proporciona pior retorno em serviços públicos à sociedade

Pelo sexto ano consecutivo, o Brasil é o país com pior retorno à população nas esferas federal, estadual e municipal, quando comparado aos 30 países que possuem as maiores cargas tributárias do mundo, em relação às áreas de saúde, educação e segurança. Os dados são do estudo realizado neste ano pelo Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT).

O estudo “Carga Tributária/PIB x IDH – Cálculo do Índice de Retorno de Bem Estar à Sociedade – IRBES”, concluído no mês de março, leva em consideração a carga tributária em relação ao PIB, ou seja, toda a riqueza produzida no País, e o Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, que mede a qualidade de vida da população.

O destaque desta edição é a Suíça, que no último estudo figurava em quarto lugar e agora aparece na liderança, como o país que, mesmo com uma carga tributária não tão elevada, de (26,90%) consegue oferecer à população serviços públicos de qualidade. Já a Austrália que era líder do ranking, passou a ocupar a quarta posição, ficando atrás da Coreia do Sul e dos Estados Unidos.

O Brasil, mesmo com arrecadação altíssima (33,65% do PIB, em 2014 ), não consegue aplicar esses recursos de forma que a população tenha um melhor retorno desses valores, ficando atrás, inclusive, de países da América do Sul, como Uruguai e Argentina.

O levantamento aponta que, apesar de terem cargas tributárias muito próximas à do Brasil, no ano de 2014, a Espanha com (33,20%) ocupa a 12ª posição; a República Tcheca com (33,50%) assume a 15ª; e Grécia com (35,90%) que mesmo em 20º lugar, estão muito à frente do País no que se refere à aplicação de recursos em benefícios dos seus cidadãos.”

Algumas desordens observadas

Serviços públicos que mais recebem críticas, de acordo com avaliação da Confederação Nacional da Indústria – CNI, em 2016:

  • Postos de saúde e hospitais;

  • Segurança Pública;

  • Atendimento à população nas repartições públicas;

  • Conservação de ruas e avenidas;

  • Rodovias / estradas;

  • Transporte público.

O bom dinheiro

De onde vem o dinheiro que sustenta a administração pública? Quais são os caminhos que esse dinheiro percorre até chegar aos cofres públicos? E o caminho de volta? São perguntas que podem parecer sem sentido para algumas pessoas, mas elas podem esclarecer muito sobre o que acontece no sistema econômico de um determinado lugar. De acordo com Bert Hellinger, o dinheiro possui um dimensão espiritual, reagindo a justiça e injustiça. No livro Leis Sistêmicas na Assessoria Empresarial, pág. 100, Bert aponta com quem o dinheiro quer ficar:

“Quer ficar com aqueles que o ganharam honestamente, com o suor de seu trabalho. Quer voltar para aqueles que trabalharam duro para obtê-lo ou para aqueles que o receberam de outros com a condição de administrá-lo e multiplicá-lo honestamente, a serviço da vida.”

Outra perspectiva

Quantas vezes vemos o dinheiro público sendo desviado para finalidades particulares ou mal empregado por incompetência? Na pág. 105 do livro Leis Sistêmicas na Assessoria Empresarial Bert Hellinger demonstra a função do dinheiro:

“O dinheiro serve. Ele possui alma, não é uma coisa. Ele serve à vida. O dinheiro ganho com suor é o que mais serve a vida. (…) O dinheiro tem uma grande necessidade de servir. A necessidade mais profunda do dinheiro é que seja gasto e que sirvamos à vida com ele.”

Eu vejo assim, e você?

Área de manobra da vida

Outro dia fui tomar café com um amigo (que é arquiteto) e ele me contava sobre uma situação corriqueira que enfrenta quando precisa fazer projetos que incluam garagens para condomínios. Pelo relato, há uma “briga eterna” entre cliente e profissional. A briga é que o condomínio QUER porque quer fazer caber um número “infinito” de veículos num espaço limitado e o profissional PRECISA obedecer a legislação planejando vagas capazes de garantir que todos possam estacionar seus veículos com segurança. As vagas precisam existir na REALIDADE e não somente no papel (ou no computador).

 

Imagem: Adobe Spark

Recebi uma aula ao ser informada de que existe uma regulamentação na Norma Brasileira – NBR para a criação de vagas em estacionamentos. As normas são estabelecidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT.

Embora eu seja habilitada, nunca tinha pensado na “ciência” por trás daquelas marcações amarelas existentes em estacionamentos particulares e públicos. Pela explicação do meu amigo, o padrão para definir uma boa vaga é determinado por vários fatores que tomam como base o tamanho médio dos veículos, a largura da via de acesso, o espaço necessário para a área de manobra, etc. O assunto rendeu, mas vou refletir brevemente sobre a parte da conversa que considerei mais sistêmica.

O conflito entre o QUERER e o PRECISAR

Décio&Wilma do IDESV sempre dizem que “não se trata do que a gente quer e sim do que a gente precisa”. Enquanto meu amigo desabafava sobre suas questões, eu pensava nessa frase tão verdadeira e em quantas vezes nós queremos que as coisas sejam do nosso jeito sem considerar todo o sistema em que estamos inseridos. São comportamentos infantilizados e algumas vezes justificados com frases do tipo “eu sou o cliente e estou te pagando para fazer do meu jeito”.

O projeto é uma coisa e a REALIDADE é outra coisa

Do que adianta eu ter um projeto maravilhoso de garagem para 20 veículos se o espaço físico existente só comporta 18? Adianta projetar 20 vagas? Adianta pintar as faixas no chão demonstrando 20 vagas?

A necessidade (e importância) da ÁREA DE MANOBRA

 

Todos nós temos um lugar no nosso sistema, nossa vaga. E todo sistema tem sua área de manobra. É nesse lugar que podemos nos movimentar apesar de certos limites. Há uma certa liberdade, mas há um limite que se for desrespeitado gera arranhões e batidas nos outros “carros”. Á área de manobra pode ser bem utilizada para sair do sistema, com gratidão e reverência. A utilização correta da área de manobra nos leva ao portão de saída sistêmico.

 

 

Pelo visto, os relacionamentos também possuem seus regramentos e sua ABNT. De acordo com Joan Garriga*:

“Nossa liberdade é como a área de manobra de um estacionamento. Nessa área você decide seus movimentos, mas o limite é o estacionamento em si”.

*(Joan Garriga na pág. 58 de A chave para uma vida boa)

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