Adoção

 

Há um tempo li duas reportagens que me fizeram refletir sobre a filosofia de Hellinger em relação à adoção. Hoje essas matérias me voltaram à memória. Por ser um tema que envolve a administração pública (adoções passam pelos procedimentos legais exigidos pelos órgãos públicos), eu os trago como forma de promover reflexão. Vou me restringir a relatar os dois casos.

A segunda reportagem não envolve o Brasil, mas demonstra o quanto a paisagem da alma humana guarda semelhança entre si. Recomendo a leitura das reportagens através dos links que colocarei abaixo.

Limbo burocrático

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A primeira reportagem relatava que uma criança brasileira havia sido adotada legalmente aos 5 anos e foi levada aos Estados Unidos, onde foi registrada. A criança cresceu e se tornou um homem, trabalhou e pagou impostos, mas pela lei americana era considerado alguém deportável mesmo após 30 anos no país. Por vários motivos o homem não se enquadrava nas regras de naturalização norte-americana e um dos impedimentos incluía uma condenação, aos 21 anos, por estupro. Ele cumpriu a pena estabelecida de 8 anos e retornou à liberdade. Após sair da prisão, ele seguiu sua vida trabalhando até que um dia foi abordado pela imigração e deportado para o Brasil.

Ocorre que pela lei brasileira a adoção é um ato irrevogável. Sendo assim, aos 37 anos o homem estava no Brasil vivendo numa espécie de limbo. Ele não era considerado norte-americano e nem brasileiro. No Brasil, não conseguia tirar certidão de nascimento, RG, CPF e isso o impedia de ter um emprego. Mal falava o português e não se adaptava aos hábitos brasileiros. Na reportagem ele afirmava:

“Sou qualquer coisa menos brasileiro”.

O vínculo entre a África de Sara-Jayne e a Inglaterra de Karoline

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Uma menina nasceu na África do Sul, em pleno o regime do Apartheid. Esse regime segregacionista que dominou a África do Sul entre 1948 e 1994 proibia, dentre muitas coisas, o contato sexual entre brancos e negros. Ocorre que essa criança era fruto do relacionamento entre uma mulher branca e um homem negro. Os pais aguardaram esperançosos de que a criança nascesse com um tom de pele claro e seu aspecto passasse despercebido diante da sociedade. Entretanto, isso não aconteceu. Para evitar problemas com o regime em vigor, os pais tomam uma decisão drástica. Disseram aos familiares que a criança havia nascido com um problema de saúde grave, embarcam para Londres e deixam a criança lá para ser adotada. Ao voltarem para a África do Sul, disseram aos familiares que a criança havia falecido.

A criança foi adotada por um casal inglês, branco e com condições financeiras favoráveis. Batizada originalmente como Sara-Jayne, teve seu nome trocado para Karoline. O tempo foi passando sem que a menina tivesse informações sobre sua origem. Até que um dia, ainda na adolescência, encontrou uma carta de sua mãe biológica que puxou o fio desse emaranhado. A carta contava a história da adoção pelo ponto-de-vista da mãe. A juventude de Karoline foi vivida com distúrbios alimentares, abuso de álcool e de medicamentos. Os sintomas perduram até por volta dos 30 anos quando ela resolve se tratar. E pela força que guia a vida, ela vai para uma clínica de reabilitação em Joanesburgo, cidade onde havia nascido.

Após quase 30 anos, o tratamento para os males apresentados se resumiu numa volta às origens. O tratamento para reabilitar a saúde foi o pontapé inicial para que Karoline se descobrisse como Sara-Jayne, se reconectasse com sua história e sua ancestralidade.

Ela foi (está) curando suas dores no reencontro com a família de origem, se reconhecendo parecida fisicamente com os irmãos e contando sua história num livro.

A força do pertencimento

Faço questão de encerrar destacando trechos da segunda reportagem com a percepção de Sara sobre seu retorno à África do Sul:

“No primeiro segundo que o avião tocou no solo (da África do Sul), alguma coisa tirou meu ar. Senti: estou em casa. Nunca me esquecerei. No caminho para a clínica de reabilitação, lembro de pensar: já estive aqui. Eu sabia, porque eu de fato já tinha estado ali. Mesmo como uma bebê de 7 semanas eu tinha estado ali.”

“Não rejeito o fato de que passei a maior parte da minha vida na Inglaterra. Mas, mesmo quando estava no Reino Unido, não me identificava como britânica. Nunca me senti britânica. Mas ser sul-africana cabe em mim.”

“Senti fortemente um pertencimento.”

Limites, quem não os tem?

Os Jogos Parapan-Americanos de 2019 aconteceram em Lima (Peru) entre os dias 22 de agosto e 1º de setembro. A delegação brasileira contou com 512 integrantes, sendo 337 atletas entre os quais atletas-guias, goleiros e pilotos, que não possuem deficiência, de 23 estados e do Distrito Federal em 17 modalidades.

Nesta 6ª edição, o Brasil entrou para a história com o recorde de medalhas conquistadas. Foram 308 medalhas, sendo:

  • 124 de ouro;

  • 99 de prata e;

  • 85  de bronze.

Esta conquista é inédita, pois em nenhuma das edições anteriores um país conquistou tantas medalhas. O sucesso alcançado é fruto, em grande parte, do investimento público para a construção do Centro de Treinamento Paraolímpico Brasileiro, localizado na cidade de São Paulo. São 95 mil metros quadrados de área construída com instalações esportivas indoor e outdoor que servem para treinamentos e competições entre atletas em 15 modalidades esportivas. As instalações do centro de treinamento brasileiro impressionam a todos, inclusive os atletas de outros países por pensarem que uma estrutura assim só poderia ser encontrada nos Estados Unidos ou em países europeus.

Quando a política pública é inclusiva e os recursos empreendidos são administrados mirando um projeto de futuro, os resultados aparecem com brilho de ouro. Nossos atletas transitam pelo centro de treinamento exibindo a beleza de seus corpos bem definidos pelas atividades esportivas que desempenham com maestria e dispensam a piedade alheia.

Bert Hellinger diz no livro A Fonte Não Precisa Perguntar Pelo Caminho, pág. 137-138, Editora Atman:

“Frequentemente a sociedade, o meio em que vivemos, compadece-se dos pais que tem um filho deficiente, como se tivessem tido uma má sorte. Mas quando se olha uma família que lida com uma criança deficiente e vê as forças que são liberadas nessa família, amor, brandura e também disciplina, então se vê que essa criança deficiente significa algo especial para essa família. (…) Uma família com uma criança deficiente ilumina ao seu redor. Muitas ilusões que se tem a propósito da felicidade e da vida são então atenuadas e dão lugar a um profundo apego à vida, tal como é, também com suas restrições e suas limitações”.

Fonte de dados e imagens: http://www.cpb.org.br/

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