Vamos falar sobre a visão sistêmica na administração pública? A administração pública é sistêmica embora muitas pessoas não percebam isso. Basta ler qualquer publicação da área, acompanhar o noticiário na televisão e no rádio ou navegar pelas redes sociais para verificar o quanto a administração pública está recheada da expressão “sistema”:

  • Sistema de educação;

  • Sistema de economia;

  • Sistema tributário;

  • Sistema de trânsito;

  • Sistema de segurança;

  • Sistema de habitação;

  • Sistema de saúde;

  • Sistema eleitoral;

  • Sistema de justiça; etc.

Apesar disso ser uma realidade, muitas políticas públicas são concebidas e implementadas em suas áreas originais sem levar em conta o impacto que vão causar na sociedade como um todo. Uma ação pública, aparentemente sem importância pode gerar um impacto significativo quando visto numa perspectiva sistêmica. É um efeito dominó! Se o impacto for benéfico, ótimo. Mas e se não for?

 

O sistema está no cidadão ou o cidadão está no sistema?

Imagem: Arquivo Pessoal

 

Em muitas ocasiões o discurso é de que a administração é sistêmica, mas um olhar levemente apurado aponta o contrário. Na administração pública usual, um único cidadão é tratado como se fosse muitos. Por exemplo, o cidadão possui um registro geral para ser identificado, mas precisa de um outro cartão de identificação para o posto de saúde, um outro documento para ser identificado como condutor no trânsito, um outro número para ser identificado no sistema de arrecadação, um outro número para participar do sistema eleitoral e por aí vai… A necessidade de identificar o cidadão por sistema demonstra que o todo está desintegrado, não há comunicação entre os sistemas.

 

Imagem: Arquivo Pessoal

 

– Hummmmmm… então você quer dizer que se a administração pública unificar o cadastro dos cidadãos ela se tornará uma Administração Pública Sistêmica – APS?

– Claro que não, cara pálida! Mas pode ser um começo.

A APS olha para administração pública num horizonte além da burocracia que a envolve. Ela olha para a administração pública como um grande campo de relacionamento e colaboração humana envolvendo incontáveis sistemas inter-relacionados. Esse modo de olhar está baseado numa visão que amplia a perspectiva de cada questão pública.

O que é perspectiva?

Perspectiva é um lugar utilizado para perceber um evento, é uma posição perante a situação, é um ângulo do qual se observa a realidade. Ao defender uma perspectiva com alguém que discorda dela, surgem frases do tipo:

– Você não me entende. Você é isso. Você é aquilo. Você não me escuta.

Conflito

Um conflito ocorre quando uma parte discorda da existência de outras perspectivas, está fixada em sua posição sem se permitir ampliar o olhar. Dentro dessa lógica irracional, cada parte observa a realidade sempre pelo mesmo ponto-de-vista e não sai dele. Quanto mais tensa a situação, mais fortes são os argumentos para defender aquele ponto-de-vista, aumentando ainda mais o conflito.

Essa postura de defesa é explicada por Bert Hellinger através da Lei Natural do Pertencimento. Defender o próprio grupo é uma estratégia humana de sobrevivência. Em geral a família é o primeiro (e mais forte) sistema de um indivíduo. A família direcionará o comportamento do indivíduo, que será moldado por costumes, crenças e culturas que estabelecerão os limites entre aquilo que será permitido ou não. O indivíduo tenderá a crescer defendendo o SEU modo de viver. Não há nada de errado nisso.

Porém, quando o indivíduo cresce, passa a conviver com indivíduos que vieram de outros sistemas e que também defendem os SEUS modos. É nesse momento que a diversidade se apresenta com toda a sua grandeza. Ver o mundo pela perspectiva de UM sistema não é errado, mas é limitado.

Na administração pública o que mais se vê são conflitos causados por defesas de pertencimento:

  • O meu partido e o seu partido (observe que a palavra por si só já significa “parte”);

  • A minha ideologia e a sua ideologia;

  • Os meus interesses e os seus interesses, etc.

Visão sistêmica

Em uma administração usual os sistemas funcionam de forma desintegrada, por isso é necessário que o cidadão seja cadastrado em cada um deles. Se o cadastro não é integrado, como é possível compreender as necessidades sociais que envolvam mais de um sistema? A resposta é simples. Não é possível. Essa visão estreita não permite um planejamento adequado e as políticas públicas são desenvolvidas sem os subsídios necessários para permitir que funcionem. De modo diferente, a integração entre os sistemas permite que as soluções sejam encontradas de forma conjunta. Assim, um problema no sistema de saúde causado pelo aumento do número de casos da dengue num bairro pode ser minimizado (ou resolvido) através de uma ação em parceria com o sistema de educação que promoverá uma campanha de conscientização envolvendo estudantes e comunidade.

É a visão ampla que faz com que uma administração pública se torne APS. Uma administração pública é APS quando os agentes públicos trabalharem conscientemente para que:

  • Cada parte tenha seu lugar respeitado no todo da sociedade;

  • Os sistemas da administração pública estejam integrados;

  • As políticas públicas forem concebidas para servirem ao bem comum.