As 3 Leis Naturais de Bert Hellinger podem ser aplicadas em qualquer ambiente onde existam relacionamentos humanos. A administração pública é um sistema rico em possibilidade de observação dos efeitos das leis sistêmicas no cotidiano da administração pública.

Pertencimento

A vida moderna e o crescimento populacional fez crescer também o número de sistemas existentes tornando os relacionamentos um pouco mais complexos. As pessoas pertencem a vários grupos e sistemas e alguns deles são virtuais. Basta dar uma olhadinha em suas redes sociais e verificar de quantos sistemas você faz parte. Participar de vários grupos gera um conflito de lealdades porque cada grupo possui seu regramento específico e algumas vezes o regramento de um grupo é contrário ao regramento de outro grupo. Vou dar um exemplo:

Imagine que um jovem pertença a um sistema familiar religioso e lá os homens se vestem com roupas formais, usam cabelos curtos, não podem fazer uso de bebida alcoólica e nem falar palavrões. Esse jovem vai estudar numa escola moderna e os rapazes da sua sala são de outras religiões (ou sem religião), alguns possuem tatuagens, cabelos compridos e usam brincos. Esse mesmo rapaz vai trabalhar numa empresa e lá, os homens jogam futebol às terças-feiras e o jogo é recheado de xingamentos por brincadeiras ou quando os ânimos esquentam. O jovem precisará se adaptar ao contexto de cada sistema caso queira permanecer nessa escola e nesse trabalho. O fato é que quando saímos de casa percebemos que o mundo é bem maior do que nossa casa e as possibilidades de encontrar pessoas muito diferentes de nós é muito grande. Algumas pessoas acabam buscando o conforto de frequentar grupos que tenham características semelhantes ao seu sistema de origem e não há nada de errado nisso. Porém, a vida fica mais limitada porque perde-se a oportunidade de conviver com as diferenças e aprender com elas. 

Há diferenças e semelhanças entre um sistema familiar e um sistema organizacional em relação ao pertencimento. Quando falamos em sistema familiar não há nada que altere o pertencimento de um indivíduo. Se ele pertence, pertence para sempre. Já nas organizações (e a administração pública é uma organização) o pertencimento existe enquanto houver o vínculo de trabalho. Para analisar o pertencimento precisamos saber qual é o sistema que está sendo olhado. Tudo vai depender de qual será a perspectiva de análise, pois podemos ver um único setor de trabalho como um sistema, uma prefeitura, tribunal ou câmara legislativa, ou até mesmo um município, estado ou país como um sistema. Relacionar quem pertence dependerá dessa perspectiva e é necessário destacar que todos possuem o mesmo direito de pertencer, independentemente do cargo que ocupa.

Na administração pública, a lei sistêmica mais atuante é o pertencimento. Um olhar levemente mais apurado aponta para as divergências provocadas por defesas de ideologias, partidos ou interesses de grupos. O discurso pode ser de inclusão e respeito, mas os efeitos denunciam os desajustes sistêmicos. A defesa excessiva do pertencimento faz com que um grupo queira administrar sem que o outro participe, numa clara demonstração de exclusão. Como se fosse possível anular a presença de uma parte do sistema sem provocar consequências dessas posturas para o todo. A necessidade de pertencer pode alimentar segregações por uma parte passar a se considerar melhor do que a outra: MEUS valores são mais importantes, MEU partido político é melhor, MEU projeto de governo é mais eficiente, MEU, MEU, MEU. 

Bert Hellinger declarou na pág. 169 do livro O Essencial é Simples que:

“O sistema não tolera que uma pessoa que lhe pertence não seja respeitada”.

Perguntas relevantes

  • Quem está excluído (pessoas) nesse sistema?

  • Quem foi importante (por dedicar-se a ajudar a construir algo) para o sistema em momento anterior e não é lembrado?

  • Alguém perdeu a vida a serviço desse sistema?

  • O que (comportamento, sentimento, ideologia) está excluído?

  • Quem pertence se sente parte do sistema ou está sempre se sentindo ameaçado?

  • O sistema da organização respeita o sistema de origem de seus membros?

  • Quando é necessário desligar um membro, com qual postura isso é feito?

Ordem

Num sistema familiar a ordem é estabelecida pela ordem de nascimento dos indivíduos. Num sistema organizacional, existem 3 tipos de ordem:

  • Ordem pela hierarquia das funções: Nessa ordem, em primeiro lugar estão as funções estratégias para a organização. Entende-se por função estratégica aquelas cujas responsabilidades demandam decisões sobre os rumos da organização. Todas as funções são importantes, mas em geral, as funções estratégicas são as melhor remuneradas. Na sequência vem as funções táticas que atuam de acordo com os direcionamentos estabelecidos pelas funções estratégicas. Após, vem as funções operacionais que dão suporte às funções de nível tático.No livro Ordens do Amor, pág. 40, Bert Hellinger afirma que:

    “Nas organizações, (…) existe também uma hierarquia por função e desempenho. Por exemplo, o departamento administrativo tem precedência sobre os demais, porque assegura os contratos externos”.

     

  • Ordem por tempo: A ordem por tempo no tempo de chegada na organização. Essa ordem vai variar de acordo com cada situação, entretanto, quando a postura é de respeito o sistema se ajusta de forma produtiva. Do contrário, quando as ordens são desvalorizadas, o sistema sofre com os desajustes.

Perceba o que Bert Hellinger descreveu no livro Ordens do Amor, pág. 40:

“Quando (…) um novo chefe, que antes (…) é colocado à frente dos demais, então, apesar de ser agora o chefe, ele ocupa a última posição (…). Deve pois, dirigir esse grupo como se fosse o último nessa hierarquia, e pode fazê-lo facilmente se entender sua função como prestação de um serviço ao grupo. O comando de quem ocupa a última posição é particularmente eficaz, desde que  tal chefe saiba como proceder. Aquele que dirige mantendo-se na posição de último ganha todos para si porque respeita a hierarquia”.

  • Ordem por origem entre os setores: De acordo com Bert Hellinger, às vezes existe uma hierarquia pela ordem de origem entre os departamentos e grupos.

Veja o exemplo dado por Bert Hellinger no livro Ordens do Amor, pág. 40-41:

“Quando numa clínica, por exemplo, é criado um novo departamento, ele ocupa uma posição inferior aos anteriores, a não ser que ganhe um novo significado, subordinando a si os departamentos preexistentes”.

Na administração pública a alternância de comando (para muitas organizações) ocorre periodicamente em virtude de eleições. Ainda que a organização não seja diretamente envolvida na troca de administração, pode ser influenciada indiretamente em razão de novas diretrizes políticas ou indicações de pessoas para funções específicas. Basta abrir os jornais e ler que recém-eleitos possuem o mal hábito de diminuir o trabalho de seus antecessores, principalmente quando cada um pertence a um grupo diferente. É comum ainda, observar um tratamento desrespeitoso por parte dos membros recém-chegados em relação aos membros que já estavam no sistema. Ainda que a ordem do recém-chegado seja maior em razão da hierarquia de função, desrespeitar a ordem por tempo pode não ser um bom negócio. Percebe-se que em muitas ocasiões o tratamento é cordial na superfície, mas a postura interna é inversamente contrária. Os seres humanos possuem uma espécie de radar interno que responde à postura interna e não ao tratamento cordial da superfície. Qual é o grau de comprometimento que se espera de alguém cujo lugar é diminuído ou desrespeitado? Essa é uma reflexão importante a se fazer.

Perguntas relevantes

  • Qual é a ordem orientada pelo objetivo da organização?

  • Qual é a ordem por função? Todas as funções existentes no sistema são necessárias ou algumas são dispensáveis?

  • Qual é a ordem por tempo?Como são tratadas as pessoas mais velhas?

  • Existe um padrão de desafio à hierarquia?

  • O sistema é composto por indivíduos considerados difíceis ou rebeldes?

  • O nível de julgamento e crítica é alto?

Equilíbrio

O equilíbrio é uma lei sensível e, ao tratá-la no contexto da administração pública é necessário ter um olhar bem atento. As organizações públicas são mantidas com dinheiro dos tributos pagos pelos contribuintes. Entretanto, o que mais se ouve são reclamações por parte dos contribuintes em razão de não terem retorno de seu dinheiro através dos serviços públicos de qualidade. As queixas pelas altas cobranças tributárias estão sempre na pauta das conversas sobre economia e política. De outro lado, os noticiários estão recheados de suspeitas e acusações de corrupção com o dinheiro público.

Bert Hellinger declarou na pág. 100 do livro Leis Sistêmicas na Assessoria Empresarial que:

“O dinheiro possui uma dimensão espiritual. Ele reage como se tivesse uma alma e um faro fino para a justiça e a injustiça”.

Perguntas relevantes

  • As trocas no sistema são equilibradas?

  • As remunerações são compatíveis com o trabalho entregue pela função?

  • Existem funções mantidas sem necessidade?

  • Quando alguém precisa ser desligado, recebe aquilo que lhe cabe?

  • Aqueles que mantém financeiramente o sistema recebem sua contrapartida de volta de forma equilibrada com sua contribuição?

Assim…

Considerando as questões apontadas até aqui, a compreensão das Leis Naturais de Bert Hellinger pode contribuir significativamente com os relacionamentos e com a melhoria da qualidade dos serviços na administração pública. Reconhecer a realidade e treinar a visão sistêmica para cada situação são os passos iniciais para mudar posturas e contextos. É possível! 

 

Imagem: Adobe Spark

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